Friday, July 29, 2016

Por trás da Cortina: Intimidade com Rory Gallagher

Escrito por: Steve Rosen


Nesse mês em “Behind The Curtain”, Steve Rosen reconta uma relação especial com o falecido ícone da guitarra, Rory Gallagher. 
Gallagher foi um herói relutante, um irlandês de fala macia fora dos palcos, totalmente diferente do gigante personagem que os fãs viram no palco.
Quando você via o diminuto músico de Ballyshannon, County Donegal, Irlanda, lá no palco, pulando e arregaçando os acordes mais enérgicos de blues que já se ouviu alguém tocar, jamais imaginaria que Rory possuía outro lado mais tranquilo. Mas ele possuía e eu testemunhei esse lado mais suave em algumas ocasiões.

Conheci e entrevistei William
Rory Gallagher em 1974, quando ele excursionava pelos EUA. Ele acabara de lançar 'Tattoo', seu quarto álbum solo, e estava se apresentando em West Hollywood, no Starwood Club com sua banda—Gerry McAvoy [baixo], Lou Martin [teclados] e Rod de’Ath [bateria]. Embora o dotado guitarrista houvesse lançado três álbuns anteriores como artista solo e dois discos como parte do trio de rock pesado Taste, Gallagher jamais obteve fama nos EUA.
Mesmo assim, ele excursionou várias vezes pela América e nessa jornada em particular, eu tive a grande sorte de conversar com ele. Antes de me encontrar com ele em seu hotel— é difícil lembrar exatamente onde a entrevista aconteceu mas posso apostar que nossa conversa ocorreu no Continental Hyatt House, na Sunset Boulevard — eu retornei e escutei a música de Rory e estudei sua história.
Ele nasceu em 2 de março de 1949 e passou pela rotina normal de tocar em diversas bandas ainda enquanto frequentava a escola. Essas bandas compunham músicas para os bailes locais e outras atividades cívicas. Entretanto, antes mesmo de ele pegar numa guitarra elétrica, o jovem músico dedilhava uma variedade enorme de instrumentos acústicos.
“Eu estava tocando um ukulele de Elvis Presley que adquiri na loja Woolworth’s,” ele me disse mais tarde. Quando tinha 13 anos de idade ele pegou em um instrumento elétrico pela primeira vez. No começo, Rory não tinha nenhum interesse verdadeiro de plugar num amplificador e aumentar o volume. Ele estava apaixonado pela música “skiffle”, uma forma popular de música folk inglesa e irlandesa executada em “washtub bass” [uma bacia de lavar roupas com uma corda só, que se tocava com um pé sobre ela] e pentes. Àquela época, quando ainda experimentava um violão, ele provavelmente pensava que uma guitarra elétrica não era pura o bastante para satisfazer seus anseios musicais tradicionais. Seis cordas.
Rory acabou comprando uma Rosetti Solid 7, que ligou a um amplificador Little Giant. Com saída de quatro watts — provavelmente não muito mais alto do que um rádio transistor no volume máximo — o som aos ouvidos do jovem guitarrista foi como uma voz vinda do céu.
Gallagher foi fisgado e se tornou elétrico. Com certeza ele afinou a guitarra, plugou e arrasou. Por fim, tocou com uma série de bandas e trocou de guitarra todo ano. Ele acabou se juntando à Fontana, uma banda irlandesa que excursionava não apenas em sua terra natal, mas também no Reino Unido. Foi com o dinheiro que ganhou nessa banda que ele conseguiu pagar as prestações de uma Fender Stratocaster, a guitarra que mudaria para sempre sua vida e a de todos que o ouviram tocá-la.

A infame Stratocaster caiu nas mãos de Rory quando ele tinha 15 anos. Outro guitarrista a havia possuído por cerca de três meses quando Gallagher se apossou dela. Essa Fender era um modelo do final de 1959 que acabaria sendo tocada em virtualmente todos os discos e todos os shows que Rory fez. “Em todos aqueles agitados shows do Taste,” ele me disse mais tarde, “o escudo entortou certa noite e soltou da guitarra.”
Ela ganhou um novo escudo. Além do mais, a ponte foi trocada para diminuir o atrito e depois que a alavanca caiu outra noite, ela foi removida completamente. Para compensar a perda do vibrato, Rory inseriu um pequeno calço dentro da ponte para evitar que o cavalete se movesse e manter as outras cordas afinadas se uma delas quebrasse.
“Jamais recoloquei o vibrato porque não gosto dele particularmente,” ele me diz. “Eu gosto do acessório Clarence White onde você pode curvar a segunda ou terceira corda um tom acima. Mas quanto à alavanca, eu tento fazer o som de vibrato com meus dedos, embora fosse divertido antigamente nos bailinhos, quando eu estava fazendo um som dançante com a guitarra e fazia “wooo” [imitando o som de entortar a corda da guitarra com a alavanca].
Ele deixou a banda Fontana e se juntou à Impact, e já em 1965 estava tocando covers de Chuck Berry em Hamburgo. As plateias alemãs estavam familiarizadas com o blues americano desde que ouviram um quarteto de Liverpool tocando essas mesmas músicas. Rory logo sentiu a irresistível necessidade de formar sua própria banda, e em 1966 ele formou o trio Taste, que fazia um blues rock pesadão que abriria shows para o Blind Faith nos EUA e Canadá. O Taste gravou quatro álbuns— dois de estúdio e dois ao vivo — e embora tenha alcançado certa fama na Inglaterra e Europa, Gallagher desfez o trio e embarcou em carreira solo.
O Taste acabou logo após tocar no festival de Isle of Wight em 1970. Gallagher começou sua carreira solo na década dos anos de 1970 e esse seria seu período mais prolífico. Em 1974, quando nos conhecemos, o guitarrista havia lançado três álbuns anteriores a Tattoo, incluindo Rory Gallagher, Deuce e Blueprint. Ele ainda esperava fazer sucesso na América, mas com o lançamento de Tattoo, o guitarrista chegaria mais próximo da popularidade nos EUA.
Cheguei eu seu hotel no começo da tarde e fui imediatamente surpreendido pela baixa estatura de Rory. No palco ele parecia medir 1,82m, mas na realidade media 1,70m. Ele me saudou com seu sotaque irlandês carregado e logo nos absorvemos em uma conversa sobre as diferenças entre Fenders e Gibsons.
“Não ficou tão à vontade com elas”, ele diz sobre as guitarras Gibson. “Obviamente sou um músico Fender. Não consigo obter a clareza de uma Gibson, a clareza metálica que se consegue com uma Fender. Você tira ritmos sincopados com a maioria das Gibsons. Existem algumas raras Gibsons, que são maravilhosas. Você consegue tirar um acorde de textura bem rústica da Gibson que em uma Fender às vezes é difícil de obter. Não acho que ela chegue tão longe quanto uma Fender - uma Fender passa do limite de sua capacidade. Mesmo tocando com um pequeno amplificador em uma enorme banda de metais, embora uma Fender não seja tão barulhenta, ela sempre passa do limite. Essa é a principal diferença”.
Conversamos por um bom tempo e Rory revelou o lado sossegado de sua personalidade. Desapareceu toda a sua bravura e o fogo que ele criava em suas aparições no palco. Isso foi substituído por um sentido de humildade - quando lhe disse que ele criara um dos sons mais inigualáveis de todos os tempos com a Stratocaster, ele gaguejou e quase perdeu a fala - verdadeira modéstia.
Porém, durante nossa conversa, Rory ficava me olhando de um jeito estranho. Não consegui descobrir o que era. Ele parecia estar curtindo nosso papo e nunca fez nada como olhar para o relógio ou limpar a garganta em um gesto que indicava “Está na hora de encerrar”. Ao invés disso nós falamos sobre guitarras e amplificadores e sua teoria de como tocar. “Eu gosto de manter o estilo acústico,” ele explica. É claro que gosto do lado elétrico, mas curto muito o violão. Não quero abraçar aquele estilo popular do blues - tocar notas simples e depois largar o violão e só cantar. Curto muito obter o máximo possível de um violão, e é para isso que ele serve. Sou quase fã, se me permite dizer, do estilo violão clássico. [o espanhol Andres] Segóvia defendia o conceito de obter tudo o que se pode do violão com o uso de todos os dedos e todo meio possível. Existem milhares de coisas que se pode conseguir. Às vezes você consegue obter com um acessório eletrônico, mas essa é a beleza do instrumento”.
Conversamos mais um pouco e ele continuava olhando para mim. Por fim eu tive que dizer “Rory, eu fiz algo de errado? Você fica me olhando e não sei o que eu fiz.” O irlandês baixinho abriu um sorriso e disse “Não, não, não”, disse com seu sotaque irlandês tão indecifrável quanto charmoso. “Eu estava apenas olhando para sua jaqueta”. Eu não fazia ideia do que ele estava falando. Sem me lembrar do que eu tinha vestido, olhei para baixo e vi que estava usando uma jaqueta Levis branca. Achei que estava me gozando, já que ele usava uma jaqueta jeans. Na verdade, sempre que você vir uma foto de Rory no palco, ele estará quase sempre usando uma jaqueta combinando com sua calça jeans.
Acontece que as jaquetas Levis brancas eram muito raras na Irlanda e ele apenas vira algumas poucas vezes. Conversamos mais algum tempo e percebi que a conversa estava perto do fim. Não pensei duas vezes em seus comentários sobre a minha jaqueta. Porém, quando eu estava saindo, ele me disse, “É uma jaqueta muito bonita”. Nessa altura eu soube o quanto ele gostou dela. Não passava de uma jaqueta qualquer para mim, portanto eu a tirei e disse, “Eu gostaria de dá-la a você”. Ele ficou bastante vermelho e começou a gaguejar e repetia. “Não, eu não posso. Obrigado. Eu não posso.” Eu disse “Por favor, seria muito importante para mim se você a aceitasse.” Ele estendeu a mão e eu pus a jaqueta em seus braços e ele ficou genuinamente impressionado. Era como se ele estivesse segurando o Cálice Sagrado. Ele não sabia como me agradecer. Estava absolutamente contente e quando a vestiu e ela serviu, ele abriu um sorriso que iluminou todo o ambiente. Ele me convidou para seu show daquela noite no Starwood e eu lhe disse que não perderia por nada. Rory tocou de maneira brilhante, incluindo várias músicas do álbum Tattoo - “Tattoo’d Lady”, “Cradle Rock”, e “A Million Miles Away” - que se tornariam clássicos, e quando ele as tocou naquela noite, ficou fácil de ver porque elas seriam executadas muitas vezes no futuro. Após o show, eu subi para a área VIP e encontrei com Donal, o irmão de Rory.
Conheci Donal brevemente quando ele entrou durante a entrevista por um momento. Ele me dissera que Rory estava absolutamente incrédulo por eu lhe ter dado minha jaqueta. Eu disse a Donal que estava feliz por fazê-lo e agora estava no direito de dizer que Rory usava uma das minhas jaquetas. Ele me deu um pequeno estojo e disse que sua equipe havia confeccionado poucas unidades desse objeto para os músicos e pessoas próximas da banda. Ele me disse que Rory queria que eu o aceitasse. Eu lhe agradeci e abri o estojo. Achei que era uma espécie de button ou algo parecido, mas o que vi me deixou boquiaberto. Era “o” broche de Rory Gallagher. Era um broche prateado no formato de uma guitarra, medindo cerca de 5cm de comprimento com a inscrição “Rory Gallagher” em alto relevo. O broche era lindo e valia muito mais do que a jaqueta que eu dera a Rory. Eu disse a Donal que seu irmão não devia dar aquilo para mim e embora eu estivesse honrado e tocado pelo sentimento, não era necessário. Donal insistiu para eu aceitar e repetiu o quanto Rory queria que eu ficasse com ele. Eu não podia acreditar que eles estavam dando aquilo para mim. Ainda possuo esse broche e o estou usando enquanto escrevo isso. Ele está um pouco gasto e não tanto lustroso quanto antigamente, mas eu não o troco nem por um punhado de diamantes. Topei com Rory alguns anos mais tarde quando ele voltou a excursionar pelos EUA. Embora tenhamos nos encontrado algumas vezes, eu sinto que éramos verdadeiros amigos - ou ao menos tão amigos quanto se pode ser de alguém que se encontrou algumas poucas vezes. 
Rory continuou a tocar e excursionar e gravar ótimos discos, mas tudo isso acabou no dia 14 de junho de 1995, quando ele faleceu. Ele adorava jaquetas de jeans Levis, mas gostava mais de beber. Ele passaria por um transplante de fígado em 1995, mas faleceu mais tarde devido à complicações. Ele tinha apenas 47 anos de idade.
Sinto uma terrível falta dele. Eu entrevistei dezenas de músicos que já faleceram, mas a morte de Rory me causou um baque forte. Tudo em que consegui pensar quando soube de seu falecimento foi no olhar em seu rosto quando eu lhe dei minha jaqueta e ele a segurou em seus braços. Eu sabia o quanto ela significava para ele e o que ele nunca soube é o quanto aquilo significou para mim. Quando Donal me deu o broche, ele disse “Rory gosta de você”. Eu penso muito nisso e agora que estou encerrando essa história, meu coração está pesado mas há um sorriso em meu rosto.
Eu sei que em algum lugar lá do paraíso das guitarras Rory Gallagher ainda está dedilhando acordes na sua Strat ’59 - e está bastante elegante em sua jaqueta Levis branca. (Fonte: www.rockcellarmagazine.com - abril/2016)

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