Entrevista com
Mark Volman e Howard Kaylan (vulgos “Flo & Eddie”), ex-vocalistas da banda
The Turtles e The Mothers Of Invention, de Frank Zappa. Entrevista conduzida
por Co de Kloet, para o programa “Supplement”, em sua Radio NOS (Holanda),
cedida para o fanzine americano “Society Pages”, em comemoração do aniversário
de 50 anos de FZ, em 30 de outubro de
1990.
Co de Kloet: Nesse momento estamos em Nova Iorque, e finalmente
temos os convidados especiais de nosso programa dessa noite. Cavalheiros,
talvez seja melhor vocês se apresentarem, por gentileza.
Mark Volman: Eu sou Mark Volman e sou conhecido como “Flo”.
Howard Kaylan: Sou Howard Kaylan e sou a outra metade da equipe. Às
vezes as pessoas me chamam de “Eddie”.
CdK: Então seriam Flo
& Eddie, os famosos Turtles, os famosos Mothers, os famosos vocalistas. É
um prazer imenso recebê-los em nosso programa.
MV&HK: (juntos) Obrigado.
CdK: Você devem saber que estamos comemorando o 50º aniversário do
Frank, nesse momento e…
MK: Vamos comprar um relógio para ele (muitas gargalhadas).
CdK: Vamos comprar
um relógio de ouro. Antes de falarmos disso, o que vocês fazem nesse momento em
Nova Iorque?
HK: Agora, em NY, estamos no rádio todo dia à tarde,
entre as duas e seis da tarde. Fazemos quatro horas por dia. Estamos em uma
estação chamada “K-Rock”. Tocamos discos de “classic rock and roll” dos
Beatles, The Who, Stones, Zeppelin e Grateful Dead, esse tipo de som, e entre
esses discos, quando os microfones estão ligados, nós agimos com naturalidade.
Não temos roteiro. Não sabemos tanto sobre esses discos como os DJs que já
estão no ramo há trinta anos. Tudo que sabemos é que somos sócios. Estávamos
por perto nos anos sessenta e setenta quando esses discos foram gravados,
portanto, trazemos um lance único à radio daqui de NY, porque nenhum outro DJ
na parte da tarde pode dizer “Ora, eu estive num quarto de hotel com Marc
Bolan, e aprendemos essas músicas, sabe, ficamos chapados juntos e fizemos sei
lá o que…” Eles não têm essas lembranças. Eles podem adivinhar o que rolava,
mas não podem contar o que rolava.
Esse é nosso senso de humor, eu acho, que é único nas rádios de NY. Estamos
curtindo pra valer. [NE: Flo &
Eddie deixaram recentemente a K-Rock e retornaram a Los Angeles].
MV: E ainda estamos excursionando como “The Turtles”, o
grupo que formamos em meados dos anos sessenta, quando éramos colegiais, e
tivemos bastante espaço nas paradas americanas, assim como no resto do mundo.
The Turtles ainda viajam como Flo & Eddie. Até esse ano, a gente fazia mais
de cem apresentações por ano. Por causa do rádio tivemos que reduzir nossos
shows até quase a metade esse ano em particular, mas continuamos pegando firme
no circuito, em festivais, muitos parques temáticos na América, e o sucesso da
música dos anos sessenta se tornou prioridade máxima nas rádios americanas. Com
essas viagens e o programa no rádio não nos restou muito tempo para relaxar.
Nosso programa é de quatro horas por dia, cinco dias por semana. É um grande
desafio para nós ter a esperança de obter um sucesso no rádio como o que
obtivemos na música.
CdK: Sim. As pessoas podem pensar que isso é um lance
“revival”, mas pessoalmente acredito que talvez, por causa do que anda rolando
agora, deve existir o fator de alívio ouvir esse material.
HK: Sim, existe. Creio que você está absolutamente
correto, especialmente porque a música dos anos noventa, até agora, não é tão
boa (risadas). Quer dizer, algumas são. Não estou dizendo que é de todo ruim.
Tem muita coisa boa por aí, mas não é como antigamente. Nos EUA, nos anos 60 e
70, quando você ligava o rádio, podia-se escutar Frank Zappa, The Supremes.
Você podia escutar Eric Burdon & The Animals, Otis Redding. Você podia
escutar todo mundo na mesma estação. E agora, na América, você tem que decidir
que tipo de música quer escutar. Se quiser escutar “rap”, é em uma estação. Se
quiser escutar “black music”, é em outra estação. As “antigas” estão em outra
estação. As coisas novas estão em outra.
MV: Outra questão é que a televisão americana se tornou uma
ferramenta valiosa para vender música do passado também. Programas como “The
Wonder Years”, “Happy Days”, filmes como “Bom Dia Vietnã”, “China Beach”, que é
um programa de enorme sucesso… todos eles recontam o que eram os anos sessenta,
seja o Vietnã, ou apenas o que era crescer com a inocência daquela época, e com
isso eles tocam as músicas dos anos sessenta.
HK: Muitas pessoas ligam um certo romantismo aos anos
sessenta que pode ou não ter existido. Que dizer, quando vivíamos aquela época,
e estávamos tocando nos Turtles, aquilo era, de um modo geral, música alegre,
porque o que rolava no resto do mundo não tinha nada de alegre. Estávamos
tentando criar uma espécie de equilíbrio. Todo mundo olha para trás e se lembra
como era maravilhoso os anos sessenta, mas o que não se lembram é que, o único
motivo pelo que estávamos felizes é que havia tanta merda no mundo que
tentávamos fazer algo que fosse mais “pra cima”. Poucas pessoas se lembram que
muitos americanos estavam combatendo na guerra durante aquele período. Aquela
não era um época muito agradável na América. Nós tentamos fazer o “Verão do
Amor”. Por aqui era o “Verão do Amor”, do outro lado do oceano não era.
CdK: E novamente, o humor na música era mais apropriado,
não era?
HK: Sim, era. Era mais vívido, era mais “antiquado”. Quer
dizer, embora, especialmente com Frank, a gente forçava a barra, por assim
dizer, tentávamos passar ilesos o máximo que se podia. De modo geral, muita
música daquela época não fazia isso. No geral, muitas músicas eram reacionárias.
MV: Muitos artistas tinham bom humor, muitos músicos diferentes. Stan
Frieberg provavelmente era o mais conhecido e famoso por gravar discos…
HK: Nos anos cinquenta
MV: Nos anos cinquenta… como humorista. Mas quando Frank Zappa surgiu com
FREAK OUT! e ABSOLUTELY FREE, Frank estava provavelmente dando umas cutucadas
na geração que estava crescendo com aqueles colares de contas e fumando
maconha, a geração “paz e amor”, e Frank tinha um jeito único para
absorver o que estava rolando e escrevia
a respeito, tirava sarro, e ainda era capaz de vender para um certo público.
Muitas músicas dele nunca tiveram espaço nas rádios até que certas estações
chutaram o balde no final dos anos sessenta, quando as rádios universitárias se
tornaram mais influentes, as estações de FM começaram a dominar e o formato
“álbum” se tornou mais importante do que as músicas dos “singles”. Frank se
tornou um dos pioneiros do estilo de música alternativa, e provavelmente um dos
motivos de termos a sorte de chegar à quarta década como grupo, como uma
organização bem sucedida como Flo & Eddie. Provavelmente tem muito a ver
com o fato de deixarmos a década de 60 dos Turtles para trás e acompanhar Frank
Zappa e fazer tudo o que qualquer artista das antigas estava tentando fazer, que
era sair do formato “pop”, das “40 mais”, e Frank trazendo Flo & Eddie dos
Turtles e seu “som pop” para a música dele ocasionou duas coisas: trouxe o pop
até Frank, sua habilidade de fazer mais “vocalizações” e o tipo de humor que
sabíamos fazer meio que sacudiu o rock'n'roll, mas ao mesmo tempo, aquilo deu
a Howard e a mim o início de uma nova história que acabou virando “Flo &
Eddie”, e rompeu aquele formato.
HK: Isso também levou Frank ao rádio, e vice-versa. O rádio começou
a prestar mais atenção, porque era quase
acessível. Frank era genial. Ele é um cara brilhante. Não preciso te dizer
isso, mas parte de seu brilhantismo é que, enquanto os hippies estavam
marchando com seus sinais de protesto e colares de contas, e as gerações
continuavam mudando, as pessoas continuavam a fumar maconha e experimentando
coisas que ainda eram novidade para elas, Frank nunca caiu nos modismos. Ele
sempre se manteve fiel a si mesmo. Então ele observava aquelas coisas e não
botava uma fé! Apenas escrevia a respeito. Ele era apenas um observador, o
melhor observador do rock'n'roll que nossa geração já teve porque ele nunca
foi um “embalo”. Ele jamais se juntou a quaisquer desses movimentos. Sempre
fazia comentários a respeito, e na maioria das vezes, as pessoas sobre a quais
ele comentava eram as que acabavam comprando seus discos, e nunca entendiam que ele falava sobre elas! Ele
estava sempre falando dos jovens americanos. Até nos concertos falava, até
hoje, ele diz “Falaí, moçada! Como estão?” Ele as trata como se fossem seus
alunos… e são mesmo! Se são inteligentes
o bastante e prestam atenção ao que Frank lhes diz e toca para elas, podem
aprender muito sobre música, sobre cultura, e se tomarem algum tempo, podem
aprender muito sobre si mesmas.
MV: E não é no sentido negativo. Uma das coisas que surgiu nos anos
com Frank Zappa e nós foi a afirmação que sempre foi parte do modo conceitual
de compôr de Frank, que era “Tudo bem estar na moda e ainda ter senso de
humor”. Frank era capaz de pegar o elemento rock/pop do sucesso dos Turtles, e
aquilo nos permitia satirizar a história do rock da qual fizemos parte como The
Turtles, e foi algo que Frank nunca teve. Quer queira ou não ter aspirado
nessa direção, ele nunca teve aquele negócio de “as 10 mais” como garantia de
sucesso na época que entramos em sua banda, e aquilo se tornou nosso alvo de
comédia.
HK: Em seu primeiro album há uma frase na contracapa que diz, “Vou
limpar esses meninos um pouquinho e torná-los…”
MV&HK: (em uníssono)… tão famosos quanto os Turtles…”
HK: “Um renomado DJ de Los Angeles”. Aquele DJ era Reb Foster,
nosso agente naquele época. Aquilo foi uma verdadeira citação, foi dita ao
Frank. Parece meio irônico que, muitos anos depois nós chegamos a Frank e ele
nos tenha tornado tão famosos quanto os Mothers (gargalhadas), mas nós
crescemos meio que juntos, em 65 e 66, quando estávamos começando. Todos nós
tocávamos na Sunset Strip. Conhecíamos Frank e sua música, portanto era questão
de provar a nosso grupo, a outros músicos e às pessoas das rádios em todo o
país que éramos tão famosos quanto os Turtles, e Frank nos deu a capacidade de
cruzar as fronteiras musicais e chegar bem próximos, quero dizer, dos Turtles –
pop de AM, e sendo os Mothers – grosseiros demais para as rádios FM, não éramos
tão diferentes. Apenas músicos querendo ganhar uma grana.
CdK: Mas vocês eram…
deixem-me tentar relembrar direito… Acho que foram os primeiros músicos famosos
que ele acrescentou à banda dele. Quero dizer, todo mundo se tornou famoso
através dos Mothers.
HK: Toda aquela banda dos Mothers of Invention a quem nos juntamos
era composta de superastros, eu acho.
MV: Frank costumava dizer que era a única banda que ele tinha onde
todo mundo poderia sair e liderar sua própria banda. Além de Flo & Eddie,
ele tinha Aynsley Dunbar, que tinha feito sucesso na carreira na Inglaterra com
a Retaliation, com os Bluesbreakers de John Mayall. George Duke estava na
banda. À época, George não era conhecido pelo sucesso que conseguira mais tarde
como produtor de Anita Baker, Philip Bailey e muitos outros astros bem
sucedidos dos anos oitenta e noventa. Don Preston, Ian Underwood, Jeff Simmons,
que tinha gravado um disco com Frank, LUCILLE HAS MESSED MY MIND UP. Foi uma
experiência única trabalhar com todos aqueles músicos, porque tínhamos estado
em uma banda, uma organização democrática onde todo mundo dividia tudo, e
entrar na banda de Frank, agora estávamos em uma banda onde respondíamos a um
líder…
HK: Uma monarquia, sem dúvida.
MV: Sim. Nós aprendemos, trabalhando com Frank, uma maneira
completamente diferente de organização, que foi como montamos nossas bandas
depois que deixamos os Mothers of Invention. Éramos líderes e aprendemos com a
organização de Frank como aquilo poderia funcionar de maneira bem sucedida. Uma
das coisas que aprendemos com Frank, como Flo & Eddie era que uma carreira
para nós não era de sucesso ano a ano, álbum por álbum, projeto por projeto. E
artisticamente, pudemos olhar para nossa carreira como um todo, percebendo que
as pessoas não irão julgar o que fizemos como artistas. Mas somos uma lembrança
na história da música, e as pessoas poderão ver mais do que contribuímos como
resultado final e aquilo que aprendemos trabalhando com os Mothers of
Invention, e é o tipo de pessoa que é o Frank. Ele pensa em sua carreira como
a obra de uma vida, e nós usamos a mesma filosofia.
CdK: Quando vocês resolveram usar o nome “Flo & Eddie”. Sendo
que “flo” é abreviação de “fluorescent”?
MV: Bem, nós tínhamos dois membros da banda que eram na verdade da
equipe técnica: um espanhol bem louco e ostentoso que sempre vivia “cerrando”
coisas na banda: cigarro, esposas, e dinheiro (gargalhadas), e apelidamos ele
de “Sanguessuga Fluorescente”. Seu nome verdadeiro era Carlos Bernal. Também
tínhamos um sujeito que era bem certinho, nós sempre dizemos “presidente da
fraternidade”, um sujeito simples, de cabelo curto, bastante articulado, bem
inteligente, e costumávamos chamá-lo de “Eddie”. Seu nome verdadeiro era Dennis
Jones. Quando os Turtles acabaram, estávamos
em litígio onde a gravadora processou cada membro da banda porque
tínhamos contratos individuais e coletivos, e Mark Volman e Howard Kaylan não
podiam legalmente fazer discos solo quando os Turtles acabaram. Portanto, nos
juntamos à banda de Frank… fizemos um álbum, na verdade cantamos em umas seis
músicas de um álbum chamado CHUNGA’S REVENGE. Frank disse, “O álbum está para
sair. Como vocês se chamarão?” A gente disse “Que tal The Phlorescent Leech e Eddie? Ele riu e disse “Soa muito bom. Vamos usar esses nomes.” Howard era “The
Phlorescent Leech” e eu era “Eddie”, porque aquilo não nos importava muito. A
gente procurou um monte de nomes chamativos, mas nenhum soava bom, portanto o
nome The Phlorescent Leech e Eddie surgiu. À época em que gravamos o álbum
branco Fillmore East, Live 1971, riscamos aquilo dizendo “Queremos ser
conhecidos como Mark Volman e Howard Kaylan”, e decidimos usar nossos próprios
nomes, e até no filme "200 Motels", The Phlorescent Leech and Eddie aparece na
seção animada quando Jeff está roubando o quarto na metade do filme. Quando
deixamos os Mothers, a gravadora Warner Brothers achou que o nome “Flo &
Eddie” era conhecido para um certo tipo de público que nos conhecia dos tempos
de Zappa, e mantivemos os nomes “The Phlorescent Leech and Eddie” em nosso primeiro
álbum solo com a Warner Brothers.
(Continua)
No comments:
Post a Comment