Friday, July 29, 2016

Flo & Eddie, Happy Together - Parte 1

Entrevista com Mark Volman e Howard Kaylan (vulgos “Flo & Eddie”), ex-vocalistas da banda The Turtles e The Mothers Of Invention, de Frank Zappa. Entrevista conduzida por Co de Kloet, para o programa “Supplement”, em sua Radio NOS (Holanda), cedida para o fanzine americano “Society Pages”, em comemoração do aniversário de 50 anos de  FZ, em 30 de outubro de 1990.

Co de Kloet: Nesse momento estamos em Nova Iorque, e finalmente temos os convidados especiais de nosso programa dessa noite. Cavalheiros, talvez seja melhor vocês se apresentarem, por gentileza.

Mark Volman: Eu sou Mark Volman e sou conhecido como “Flo”.
Howard Kaylan: Sou Howard Kaylan e sou a outra metade da equipe. Às vezes as pessoas me chamam de “Eddie”.

CdK: Então seriam Flo & Eddie, os famosos Turtles, os famosos Mothers, os famosos vocalistas. É um prazer imenso recebê-los em nosso programa.

MV&HK: (juntos) Obrigado.

CdK: Você devem saber que estamos comemorando o 50º aniversário do Frank, nesse momento e…
MK: Vamos comprar um relógio para ele (muitas gargalhadas).

CdK: Vamos comprar um relógio de ouro. Antes de falarmos disso, o que vocês fazem nesse momento em Nova Iorque?

HK: Agora, em NY, estamos no rádio todo dia à tarde, entre as duas e seis da tarde. Fazemos quatro horas por dia. Estamos em uma estação chamada “K-Rock”. Tocamos discos de “classic rock and roll” dos Beatles, The Who, Stones, Zeppelin e Grateful Dead, esse tipo de som, e entre esses discos, quando os microfones estão ligados, nós agimos com naturalidade. Não temos roteiro. Não sabemos tanto sobre esses discos como os DJs que já estão no ramo há trinta anos. Tudo que sabemos é que somos sócios. Estávamos por perto nos anos sessenta e setenta quando esses discos foram gravados, portanto, trazemos um lance único à radio daqui de NY, porque nenhum outro DJ na parte da tarde pode dizer “Ora, eu estive num quarto de hotel com Marc Bolan, e aprendemos essas músicas, sabe, ficamos chapados juntos e fizemos sei lá o que…” Eles não têm essas lembranças. Eles podem adivinhar o que rolava, mas não podem contar o que rolava. Esse é nosso senso de humor, eu acho, que é único nas rádios de NY. Estamos curtindo pra valer. [NE: Flo & Eddie deixaram recentemente a K-Rock e retornaram a Los Angeles].

MV: E ainda estamos excursionando como “The Turtles”, o grupo que formamos em meados dos anos sessenta, quando éramos colegiais, e tivemos bastante espaço nas paradas americanas, assim como no resto do mundo. The Turtles ainda viajam como Flo & Eddie. Até esse ano, a gente fazia mais de cem apresentações por ano. Por causa do rádio tivemos que reduzir nossos shows até quase a metade esse ano em particular, mas continuamos pegando firme no circuito, em festivais, muitos parques temáticos na América, e o sucesso da música dos anos sessenta se tornou prioridade máxima nas rádios americanas. Com essas viagens e o programa no rádio não nos restou muito tempo para relaxar. Nosso programa é de quatro horas por dia, cinco dias por semana. É um grande desafio para nós ter a esperança de obter um sucesso no rádio como o que obtivemos na música.

CdK: Sim. As pessoas podem pensar que isso é um lance “revival”, mas pessoalmente acredito que talvez, por causa do que anda rolando agora, deve existir o fator de alívio ouvir esse material.

HK: Sim, existe. Creio que você está absolutamente correto, especialmente porque a música dos anos noventa, até agora, não é tão boa (risadas). Quer dizer, algumas são. Não estou dizendo que é de todo ruim. Tem muita coisa boa por aí, mas não é como antigamente. Nos EUA, nos anos 60 e 70, quando você ligava o rádio, podia-se escutar Frank Zappa, The Supremes. Você podia escutar Eric Burdon & The Animals, Otis Redding. Você podia escutar todo mundo na mesma estação. E agora, na América, você tem que decidir que tipo de música quer escutar. Se quiser escutar “rap”, é em uma estação. Se quiser escutar “black music”, é em outra estação. As “antigas” estão em outra estação. As coisas novas estão em outra.
MV: Outra questão é que a televisão americana se tornou uma ferramenta valiosa para vender música do passado também. Programas como “The Wonder Years”, “Happy Days”, filmes como “Bom Dia Vietnã”, “China Beach”, que é um programa de enorme sucesso… todos eles recontam o que eram os anos sessenta, seja o Vietnã, ou apenas o que era crescer com a inocência daquela época, e com isso eles tocam as músicas dos anos sessenta.
HK: Muitas pessoas ligam um certo romantismo aos anos sessenta que pode ou não ter existido. Que dizer, quando vivíamos aquela época, e estávamos tocando nos Turtles, aquilo era, de um modo geral, música alegre, porque o que rolava no resto do mundo não tinha nada de alegre. Estávamos tentando criar uma espécie de equilíbrio. Todo mundo olha para trás e se lembra como era maravilhoso os anos sessenta, mas o que não se lembram é que, o único motivo pelo que estávamos felizes é que havia tanta merda no mundo que tentávamos fazer algo que fosse mais “pra cima”. Poucas pessoas se lembram que muitos americanos estavam combatendo na guerra durante aquele período. Aquela não era um época muito agradável na América. Nós tentamos fazer o “Verão do Amor”. Por aqui era o “Verão do Amor”, do outro lado do oceano não era.

CdK: E novamente, o humor na música era mais apropriado, não era?

HK: Sim, era. Era mais vívido, era mais “antiquado”. Quer dizer, embora, especialmente com Frank, a gente forçava a barra, por assim dizer, tentávamos passar ilesos o máximo que se podia. De modo geral, muita música daquela época não fazia isso. No geral, muitas músicas eram reacionárias.
MV: Muitos artistas tinham bom humor, muitos músicos diferentes. Stan Frieberg provavelmente era o mais conhecido e famoso por gravar discos…
HK: Nos anos cinquenta
MV: Nos anos cinquenta… como humorista. Mas quando Frank Zappa surgiu com FREAK OUT! e ABSOLUTELY FREE, Frank estava provavelmente dando umas cutucadas na geração que estava crescendo com aqueles colares de contas e fumando maconha, a geração “paz e amor”, e Frank tinha um jeito único para absorver o que estava rolando e escrevia a respeito, tirava sarro, e ainda era capaz de vender para um certo público. Muitas músicas dele nunca tiveram espaço nas rádios até que certas estações chutaram o balde no final dos anos sessenta, quando as rádios universitárias se tornaram mais influentes, as estações de FM começaram a dominar e o formato “álbum” se tornou mais importante do que as músicas dos “singles”. Frank se tornou um dos pioneiros do estilo de música alternativa, e provavelmente um dos motivos de termos a sorte de chegar à quarta década como grupo, como uma organização bem sucedida como Flo & Eddie. Provavelmente tem muito a ver com o fato de deixarmos a década de 60 dos Turtles para trás e acompanhar Frank Zappa e fazer tudo o que qualquer artista das antigas estava tentando fazer, que era sair do formato “pop”, das “40 mais”, e Frank trazendo Flo & Eddie dos Turtles e seu “som pop” para a música dele ocasionou duas coisas: trouxe o pop até Frank, sua habilidade de fazer mais “vocalizações” e o tipo de humor que sabíamos fazer meio que sacudiu o rock'n'roll, mas ao mesmo tempo, aquilo deu a Howard e a mim o início de uma nova história que acabou virando “Flo & Eddie”, e rompeu aquele formato.
HK: Isso também levou Frank ao rádio, e vice-versa. O rádio começou a prestar mais atenção, porque era quase acessível. Frank era genial. Ele é um cara brilhante. Não preciso te dizer isso, mas parte de seu brilhantismo é que, enquanto os hippies estavam marchando com seus sinais de protesto e colares de contas, e as gerações continuavam mudando, as pessoas continuavam a fumar maconha e experimentando coisas que ainda eram novidade para elas, Frank nunca caiu nos modismos. Ele sempre se manteve fiel a si mesmo. Então ele observava aquelas coisas e não botava uma fé! Apenas escrevia a respeito. Ele era apenas um observador, o melhor observador do rock'n'roll que nossa geração já teve porque ele nunca foi um “embalo”. Ele jamais se juntou a quaisquer desses movimentos. Sempre fazia comentários a respeito, e na maioria das vezes, as pessoas sobre a quais ele comentava eram as que acabavam comprando seus discos, e nunca entendiam que ele falava sobre elas! Ele estava sempre falando dos jovens americanos. Até nos concertos falava, até hoje, ele diz “Falaí, moçada! Como estão?” Ele as trata como se fossem seus alunos… e são mesmo!  Se são inteligentes o bastante e prestam atenção ao que Frank lhes diz e toca para elas, podem aprender muito sobre música, sobre cultura, e se tomarem algum tempo, podem aprender muito sobre si mesmas.
MV: E não é no sentido negativo. Uma das coisas que surgiu nos anos com Frank Zappa e nós foi a afirmação que sempre foi parte do modo conceitual de compôr de Frank, que era “Tudo bem estar na moda e ainda ter senso de humor”. Frank era capaz de pegar o elemento rock/pop do sucesso dos Turtles, e aquilo nos permitia satirizar a história do rock da qual fizemos parte como The Turtles, e foi algo que Frank nunca teve. Quer queira ou não ter aspirado nessa direção, ele nunca teve aquele negócio de “as 10 mais” como garantia de sucesso na época que entramos em sua banda, e aquilo se tornou nosso alvo de comédia.
HK: Em seu primeiro album há uma frase na contracapa que diz, “Vou limpar esses meninos um pouquinho e torná-los…”
MV&HK: (em uníssono)… tão famosos quanto os Turtles…”
HK: “Um renomado DJ de Los Angeles”. Aquele DJ era Reb Foster, nosso agente naquele época. Aquilo foi uma verdadeira citação, foi dita ao Frank. Parece meio irônico que, muitos anos depois nós chegamos a Frank e ele nos tenha tornado tão famosos quanto os Mothers (gargalhadas), mas nós crescemos meio que juntos, em 65 e 66, quando estávamos começando. Todos nós tocávamos na Sunset Strip. Conhecíamos Frank e sua música, portanto era questão de provar a nosso grupo, a outros músicos e às pessoas das rádios em todo o país que éramos tão famosos quanto os Turtles, e Frank nos deu a capacidade de cruzar as fronteiras musicais e chegar bem próximos, quero dizer, dos Turtles – pop de AM, e sendo os Mothers – grosseiros demais para as rádios FM, não éramos tão diferentes. Apenas músicos querendo ganhar uma grana.

CdK: Mas vocês  eram… deixem-me tentar relembrar direito… Acho que foram os primeiros músicos famosos que ele acrescentou à banda dele. Quero dizer, todo mundo se tornou famoso através dos Mothers.

HK: Toda aquela banda dos Mothers of Invention a quem nos juntamos era composta de superastros, eu acho.
MV: Frank costumava dizer que era a única banda que ele tinha onde todo mundo poderia sair e liderar sua própria banda. Além de Flo & Eddie, ele tinha Aynsley Dunbar, que tinha feito sucesso na carreira na Inglaterra com a Retaliation, com os Bluesbreakers de John Mayall. George Duke estava na banda. À época, George não era conhecido pelo sucesso que conseguira mais tarde como produtor de Anita Baker, Philip Bailey e muitos outros astros bem sucedidos dos anos oitenta e noventa. Don Preston, Ian Underwood, Jeff Simmons, que tinha gravado um disco com Frank, LUCILLE HAS MESSED MY MIND UP. Foi uma experiência única trabalhar com todos aqueles músicos, porque tínhamos estado em uma banda, uma organização democrática onde todo mundo dividia tudo, e entrar na banda de Frank, agora estávamos em uma banda onde respondíamos a um líder…
HK: Uma monarquia, sem dúvida.
MV: Sim. Nós aprendemos, trabalhando com Frank, uma maneira completamente diferente de organização, que foi como montamos nossas bandas depois que deixamos os Mothers of Invention. Éramos líderes e aprendemos com a organização de Frank como aquilo poderia funcionar de maneira bem sucedida. Uma das coisas que aprendemos com Frank, como Flo & Eddie era que uma carreira para nós não era de sucesso ano a ano, álbum por álbum, projeto por projeto. E artisticamente, pudemos olhar para nossa carreira como um todo, percebendo que as pessoas não irão julgar o que fizemos como artistas. Mas somos uma lembrança na história da música, e as pessoas poderão ver mais do que contribuímos como resultado final e aquilo que aprendemos trabalhando com os Mothers of Invention, e é o tipo de pessoa que é o Frank. Ele pensa em sua carreira como a obra de uma vida, e nós usamos a mesma filosofia.

CdK: Quando vocês resolveram usar o nome “Flo & Eddie”. Sendo que “flo” é abreviação de “fluorescent”?

MV: Bem, nós tínhamos dois membros da banda que eram na verdade da equipe técnica: um espanhol bem louco e ostentoso que sempre vivia “cerrando” coisas na banda: cigarro, esposas, e dinheiro (gargalhadas), e apelidamos ele de “Sanguessuga Fluorescente”. Seu nome verdadeiro era Carlos Bernal. Também tínhamos um sujeito que era bem certinho, nós sempre dizemos “presidente da fraternidade”, um sujeito simples, de cabelo curto, bastante articulado, bem inteligente, e costumávamos chamá-lo de “Eddie”. Seu nome verdadeiro era Dennis Jones. Quando os Turtles acabaram, estávamos  em litígio onde a gravadora processou cada membro da banda porque tínhamos contratos individuais e coletivos, e Mark Volman e Howard Kaylan não podiam legalmente fazer discos solo quando os Turtles acabaram. Portanto, nos juntamos à banda de Frank… fizemos um álbum, na verdade cantamos em umas seis músicas de um álbum chamado CHUNGA’S REVENGE. Frank disse, “O álbum está para sair. Como vocês se chamarão?” A gente disse “Que tal The Phlorescent Leech e Eddie? Ele riu e disse “Soa muito bom. Vamos usar esses nomes.” Howard era “The Phlorescent Leech” e eu era “Eddie”, porque aquilo não nos importava muito. A gente procurou um monte de nomes chamativos, mas nenhum soava bom, portanto o nome The Phlorescent Leech e Eddie surgiu. À época em que gravamos o álbum branco Fillmore East, Live 1971, riscamos aquilo dizendo “Queremos ser conhecidos como Mark Volman e Howard Kaylan”, e decidimos usar nossos próprios nomes, e até no filme "200 Motels", The Phlorescent Leech and Eddie aparece na seção animada quando Jeff está roubando o quarto na metade do filme. Quando deixamos os Mothers, a gravadora Warner Brothers achou que o nome “Flo & Eddie” era conhecido para um certo tipo de público que nos conhecia dos tempos de Zappa, e mantivemos os nomes “The Phlorescent Leech and Eddie” em nosso primeiro álbum solo com a Warner Brothers.  (Continua)


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