Durante o voo para a Alemanha, assisti a um filme
chamado “American Hustler”, com Christian Bale, Bradley Cooper (o bonitão de “Se Beber Não Case”) e uma ponta de Robert De Niro,
além de episódios de “Big Bang Theory” e “Two And a Half Men”. Sentei-me entre um carioca, pela esquerda, e
na direita fiquei espremido por um gordão polonês que ficou nervoso e calado
toda a viagem – que durou onze horas - e só abriu a boca quando o avião pousou.
Chegamos ao aeroporto de Frankfurt e fomos recebidos pelo excêntrico, porém engraçado motorista da van Tomshek, que nos conduzirá durante
todo o nosso giro através de várias cidades da Alemanha e França.
26 de junho (1º
dia, sexta-feira) – Kopernikus – Hannover
1:57: Fim de festa; descarregando equipamento, e o ambiente ressoava com som confuso,
uma mistura de som pop com EBM (ou era minha cabeça que ainda estava zunindo
pela barulheira de minutos atrás).
27 de junho (2º
dia, sábado) – Private Party – Rosswein
Chegamos à bela
cidade de Rosswein, para uma “festa particular” de aniversário do chef local chamado Homme. Antes teve uma peça de teatro com muito humor, e
mesmo não eu entendendo alemão, ri muito, já que até os atores mal conseguiam
segurar as gargalhadas enquanto liam suas falas. Ao final, o aniversariante
ganhou uma bicicleta e deu algumas voltas ao redor da sala. Puta casarão com palco pequeno, um lindo bar com recepção e jardim para
churrasco em um coreto, onde puseram uma enorme mesa para comer e beber. O show
do Flicts teve ótima recepção, e tocaram músicas de seus álbuns e do novo EP,
‘Sonhos Corrrompidos’, “Vida Fluída”, minha predileta, além da excelente cover
“Alienação Homem”, do Psykóze. Saímos do show e rumamos pra casa do ex-batera do RASTA KNAST, Balo.
Tomamos banho, almoçamos e batemos papo até as 15h, quando o “motora” Tomshek
trouxe a van e rumamos até o show seguinte. Como sempre, paisagens lindas de
florestas ao longo da autobahn. Espero que a gente não demore a parar porque só
temos pão e nada de água. Sede da porra!
28 de junho (3º
dia, domingo) – Juz Riot - Lichtenstein
Flicts toca
daqui a pouco em uma linda e pequena cidade,
um puta lugar legal, jardim e árvores pra todo lado, parece uma cidade de
sonhos. O show no Juz “Riot” foi um dos melhores, ótimo palco e som. Pelo que
presenciei, todo mundo curtiu, cantou e pulou, inclusive eu. As lindas filhas
do organizador, Tina e Connie, adoraram nossa presença e contribuíram com suas
danças. “JZ” significa Jugendzentrum (Centro da
Juventude). A bateria da câmera pifou.
29 de junho (4º. dia, segunda-feira).
Mais ou menos onze e meia da
manhã, estamos na estrada, indo para Berlim, onde a banda fará seu próximo
show, no Köpi. Devemos nos encontrar com “Blank” Frank e Ramses, do centro da
juventude “Riot”.
12h30, paramos em um posto de gasolina, a uns noventa minutos
de Berlim.
30 de junho (5º. dia,
terça-feira) KöPi – Berlin
11h16 - Ontem
foi dia de folga e ficamos hospedados na casa da Marina, amiga de Tomshek. Ela
mora com uma inglesa chamada Lili (que mora há três anos na Alemanha, e fala
como uma metralhadora). Marina tem uma boa coleção de LPs, que vai de Amebix,
Suicidal Tendencies, Bolt Thrower – ao chegarmos, ela ouvia “For Victory” no
computador - Elvis, Girlschool, Stevie Wonder etc. Logo saímos para beber,
fomos até um parque público com umas garrafas de cerveja, depois passamos pela
rua onde existe o último pedaço do Muro de Berlim; visitamos a famosa Berlin
Alexander Platz e o Portão de Brandenburgo; andamos pela parte oriental. Mais
de noite fomos a um restaurante árabe e comemos falafel – eu nunca tinha
comido, mas fiquei bastante satisfeito. Rafael terminou bem rápido e ainda disse
que queria pizza! Ficamos tão estupefatos com isso que virou piada. Eram 21h15
e ainda fazia sol.
01 de julho – (6º. dia, quarta-feira -) – Substanz –
Osnabrück
11h23 - Já nos levantamos e dentro de alguns minutos caímos na estrada. A viagem
deve durar de 5 a 6 horas até Osnabrück.
15h00 – Depois de viajar umas três
horas, fugindo do tráfego da cidade de Berlim. Wüstersforst a 500 milhas.
16h58 – Parada a 2km de Dortmund. Pouca coisa aconteceu na
van, com todos cansados demais para brincadeiras (sabe, aquelas piadas: "Doce ou salgado? Vinho ou champanhe? Punk77 ou UK82? Muito sexo ou muito dinheiro? Homem ou mulher?"). Na parada, fomos ao banheiro
de uma loja de conveniências, cujo uso custa 70 centavos de euro.
18h40 –
Chegamos a Osnabrück. Muito sol! O show começou as 22h30 – e já tinha fãs
inquietos. Parece que aqui os punks não curtem muito pogar. Eu comecei a pogar
nas primeias músicas mas logo parei porque estava me sentindo ridículo. Ao
final, todos aplaudiram muito.
02 de julho (7º. dia, quinta-feira) Lobusch –
Hamburgo
14h00 –
Deixamos Osnabrück debaixo de muito sol. Foi uma longa noite, ficamos bebendo
(novidade!), conversando e jogando pebolim (que existe em todos os lugares que
passamos, e que eles chamam de “Kicker”.) Sou péssimo, perdi duas partidas para
o motorista Tomshek, que ficou tripudiando.
16h57 – Estamos entrando em
Hamburgo. No caminho, demos carona a uma garota que esteve no show anterior.
Hamburgo é talvez a segunda maior cidade da Alemanha, com diversos pontos
turísticos, mas tem bastante verde. Antes de montarmos o palco do Lobusch,
comemos churrasco no jardim que fica nos fundos. Depois nos instalamos no 5º e
último andar do prédio, no apartamento de Tomshek. Subimos pela clarabóia e
andamos pelo terraço, com uma visão ampla da cidade, onde a banda tirou algumas
fotos. A banda de abertura, WIRRSAL, faz um som HC-crust bem
característico europeu. O local é pequeno e NÃO TEM VENTILAÇÃO. Imagine a
sensação de forno dali. A apresentação do FLICTS nesse lugar foi uma das
melhores da turnê, com ótima recepção do público, o som estava ótimo, e
tocaram faxas de Canções de Batalha (“Juventude”, “Paulicéia”,”Briga de Bar”,
“Amigos” etc. Singelos Confrontos –
“E o Povo, Onde Está?”, “Latinoamérica”, além de “Vida Fluída”, do novo disco.
A coisa boa é que o show acabou antes da meia-noite. Todo mundo ficou
conversando e bebendo, alguns foram até à rua em frente e outros ficaram no
jardim dos fundos, onde à tarde houve um churrasco. A seguir, tocamos em Bonn.
Deixamos a cidade por volta de 13h05.
17h15 – Paramos
num posto de gasolina onde havia um “MacMurder”, porque Rafael queria mijar,
mas como não tinha moedas, resolveu mijar num mato ali perto, o vândalo! Por
volta de 18h15, enfrentamos tráfego pesado quando passávamos pelo estádio do
Verden Bremen. Não deu pra ver muita coisa, apenas a estrutura metálica
superior, um enorme arco que deve sustentar a iluminação.
03 de julho – (8º. dia, sexta-feira) Kult 41 –
Bonn
O show foi bem
animado; aconteceu no Kult 41, de Bonn, antiga capital alemã, antes da
separação do Muro. Quem compareceu foram as amigas brasileiras Fabíola e
Fernanda, que estavam na cidade a trabalho. A banda local PROFIT+MURDER abriu a
noite com um som crust punk, liderada pelo vocalista Patrick, acompanhado do
vampiresco e esquelético guitarrista Kasi. Ele lembra uma mistura de Brian Eno
com Klaus Kinsky, no filme “Nosferatu”.
Os ouvidos do Rafael foram maltratados. O trio dos “anarcheese” Flicts atraiu o
público quando tocou “Desmascarar”, manteve todos atentos durante “E o Povo,
Onde Está?” e “Vida Fluída”, até
encerrar com “Amigos”.
4 de julho - (9º. dia, sábado) Plastic Bomb Party – Oberhausen
Fui dormir lá pela meia-noite, acordei as 8h30, e encontrei Kasi no jardim, já tomando
cerveja e com a mesma roupa do show. Ele disse que não é membro original, mas
está na banda há cinco anos. Terminei o café num banco do quintal lendo um
conto de P. G. Wodehouse (“Mr Mulliner Speaking”). Ótima maneira de começar o
dia.
5 de julho – (10º
dia, domingo) AZ – Verden
Partimos para
Verden mais ou menos às 11h30, numa viagem de umas três horas. Choveu forte
durante a madrugada, e continuou durante o dia. Raios e trovões! Chegamos por
volta de três da tarde, descarregamos o equipamento, a banda fez “soundcheck”
meia hora depois e tocou as 17h, para uma plateia que é melhor esquecer –
algumas garotas muito tímidas, uns jovens e duas crianças. Choveu muito, o que
deve ter afastado a maioria.
6 de julho - (11º
dia, segunda-feira)
Ficamos na casa
de Ballo, ex-batera do RASTA KNAST e dono do selo Break The Silence. Dormimos
todos lá, além do motora Tomshek. Basicamente fizemos o que se faz em dia de
folga, ouvir música – Ballo tem de tudo, Lard, NoMeansNo, Bjork, Dead
Kennedys, Mau Maus, Bolt Thrower, Totalitar etc – e mais tarde iremos até a
casa do Martin, guitarrista do Rasta Knast, possivelmente para comer um
churrasco.
15h3O – A casa
do Martin tem um jardim no fundo, com cerejeiras. Peguei direto do pé! Pedro,
batera do Agrotóxico, chegou há uma hora e tomamos várias cocas com rum,
cerveja e comemos churrasco vegano, depois frango na brasa.
21h30 e AINDA
TEM SOL se pondo.
7 de julho (12º
dia, terça-feira)
Ainda em dia de
folga, voltamos a Hamburgo onde o Flicts fará um show extra em outro lugar.
Estamos de volta à casa de Tomshek, ao lado do Lobtsch, local do outro show.
Pedro, Martin e Don talvez nos encontrem em Bochum.
São 18h10 (13h10 no
Brasil). Passamos as últimas horas num pub totalmente vazio, pondo fichas em
uma jukebox: ouvimos de Elvis a New Model Army, passando por vários estilos,
pop, funk e disco. Choveu muito nessa noite, e antes de ir para casa (apê do
Tomshek), passamos pela Reeperbahn, a zona dos bordéis e puteiros. Típica cena
de cinema europeu: esfalto molhado pós-chuva e mulheres semi-nuas nas vitrines e
carros passando lentamente com os vidros baixados.
8 de julho (13º
dia, quarta-feira)
16h08 – Hoje,
dia do show (que foi confirmado), fomos ao estádio do St. Pauli. Jeferson e
Arthur compraram camisetas e brindes. A grana está acabando e a banda precisa
“fazer” dinheiro nos próximos shows.
20h00 –
Chegamos ao local da apresentação, um enorme labirinto de trailers em um
terreno com jardim, vários ambientes, um bar ao ar livre, e o próprio local se
chama “Eldorado”, pequeno mas aconchegante. A banda começou a tocar às 20h45 e
ainda chovia muito no começo, depois parou. Foi mais uma noite animada, e ainda
encontramos Alex, da loja True Rebel, além de um colombiano que já esteve no
Brasil (também chamado Alex), e um monte de punks que havíamos encontrado no
pub perto da casa de Tomshek. Boa noite.
9 de julho (14º
dia, quinta-feira) The Clearing Barrel – Kaiserslautern
Depois de
dormir pela última vez no apê de Tomshek – que fica no 5º andar, sem elevador –
saímos de Hamburgo perto de dez da manhã, com destino a Kaiserslautern. Faz sol
mas venta muito.
16h54 –
Chegamos a Kaiserslautern, uma bela cidade, onde muitas casas e empresas usam energia
solar. Inclusive eu conversei com um punk inglês de Liverpool no pub de Hamburgo (dei-lhe um
boné do Flicts), que depois foi ao Eldorado. Ele me disse que é engenheiro e
lida com energia solar. O local de show se chama The Clearing Barrel e é uma
pequena casa que serve café, cerveja e refeições veganas. Foi aberto em 2012 no
centro da cidade, em meio a uma base militar Americana, e ainda serve de abrigo
alternativo para aconselhamento de soldados veteranos de guerra e suas famílias
sobre seus direitos e engajamento político anti-militarismo. Foi nesse lugar
que lembro de ter tomado o melhor café da manhã de toda a turnê.
10 de julho
(15º dia, sexta-feira) – Antinational Fest – Fresse Sur Moselle - França
13h30 – Deixamos Kaiserslautern
com céu azul, depois de uma noite agradável. O show da noite anterior
começou às 20h30, mais ou menos, púlico
tímido no começo. Alguns adolescentes preferiram ficar sentados num sofá com a
cabeça baixa olhando seus celulares. Duas meninas começaram a dançar, eu me juntei
a elas, e uma terceira entrou também. O set foi enxuto, abrindo com
“Desmascarar”, e terminou com “Canção de Batalha” e a cover “Ring Of Fire”, de
Johnny Cash. Agora rumamos para a França, país até então desconhecido para mim.
14h14 –
Entramos na França! Que lindo rodar pela estrada toda arborizada, ouvindo uma
espécie de jazz francês, cantado por uma voz feminina, sob o sol de uma tarde
preguiçosa de sexta-feira. Chegamos por volta de 18h30 ao local do show, um
enorme acampamento nas montanhas, com várias tendas, um banheiro comunitário
feito de uma casinha de madeira sem porta, apenas um pedaço de cartolina
pendurado por um barbante e com os dizeres “ocupado” de um lado e “livre” no
verso (único momento desconfortável). Serviram um delicioso rango vegano feito
na hora, mas a cerveja era muito ruim. Antes fomos dar um passeio pelas
redondezas, depois de deixar nossos pertences na van e descarregar os
instrumentos. Descemos a estrada a pé, cruzamos uma pequena ponte sobre um
riacho de águas claras que continha peixes. A cidade possui várias casas
seculares e uma bela ingreja à beira da estrada. Antes do show fiquei meio
apreensivo com a reação do público porque era um festival mais voltado para
bandas “crust”, e o Flicts era a única banda de punk tradicional. Depois de
assistir a bandas como WARFUCK (um duo à la TEST), VERBAL RAZORS, e SIMBIOSE,
de Portugal, achei que o público iria
ignorar o trio paulista. Mas não, muita gente pulou, gritou e agitou bastante.
Foi uma ótima noite.
11 de julho (16º dia, sábado) Les Tanneries – Dijon – França
Saímos de lá meio-dia. Agora rumo a Dijon, para tocar com
Simbiose e os italianos dos LOS FASTIDIOS.
15h20 – Chegada a Dijon debaixo de muito sol, céu azul.
Cidade de aspecto de interior, ruas estreitas e muitas casas antigas. Espero que
a gente possa experimentar algum vinho, que ainda não tomamos. Foi só cerveja.
12 de julho (17º dia, domingo)
12h53 – O show de ontem foi bom, com um grande palco e ótimo
som. Tomshek sabia que o local havia mudado mas lhe deram o endereço do antigo
local, por isso paramos diante de um portão trancado de um edifício meio em
processo de demolição. Sorte nossa que havia um punk francês por perto e nos
orientou até o novo local. Mas no caminho pegamos um trânsito lento porque os
próprios organizadores faziam uma carreata até lá, acompanhados pela polícia
local, até a nova casa que fica a uns cinco quarteirões de distância. Tudo deu certo. O Flicts
começou a tocar lá pelas 23h00, (o sol se pôs às 21h45! Falo isso porque fui
dar uma volta lá fora por causa do ambiente abafado e presenciei a claridade
àquela hora), abrindo para o Simbiose e os Los Fastidios. Armei minha mesa de
“merch” bem perto do palco e deu para ver todos dali mesmo. Houve um acordo com
a ordem das bandas e os italianos devem ter acabado sua apresentação já entrando
pela madrugada. Ao final ficamos conversando, puvindo som ambiente enquanto
bebíamos (novidade!) e conhecemos uma brasileira chamada Júlia, que mora em
Dijon. Ela curte mais o som crust do que punk rock. Logo depois fomos para o apartamento
de Maxim, um dos organizadores do festival, tomamos banho e um café. Às 14h45,
partimos para a estrada. Devemos parar no meio do caminho, pois será uma longa
viagem.
15h45 – Paramos num posto de caminhões onde encontramos uam
espécie de parque com mesas e bancos sob umas árvores e comemos nossa refeição
composta de pão, queijo e mostarda, maçã e banana, e suco. Nós quatro
bancamos os vândalos e fomos mijar no
mato, já que não havia banheiro à vista, somente uns carros e vários caminhões
de combustível à nossa volta. Uns vinte minutos depois, de volta à estrada.
19h00 – Chegamos a Le Mans e nos hospedamos em um daqueles hotéis da rede F1. Arthur, Rafael e
eu ficamos em um quarto e Jef fez companhia a Tomshek em outro. Como era cedo,
fomos procurar um lugar para fazer um churrasco com as carnes que compramos e a
grelha de Tomshek. Depois de rodar alguns quilômetros, achamos um parque
público com quadra de tênis e havia um enorme estacionamento onde paramos e
montamos a churrasqueira e os acompanhamentos. Em menos de um minuto avistamos
um sujeito de uniforme preto vindo de longe em nossa direção e falando a um
celular. À medida que ele se aproximava, a gente especulou se seria um
policial ou segurança… e a grelha já produzia muito fumaça… Ele andava meio
de lado e não olhava para a gente, e em um momento se virou de costas. Eu
li “securité” no seu uniforme. Todos nós pensamos “Fudeu!” Mas ele desligou o
celular e perguntou em francês: “Estão
fazendo um churrasquinho?” O professor Rafael respondeu “C’est possible, no?”
(eu me segurei pra não rir na hora!). O segurança abriu um sorriso e respondeu
algo do tipo “Podem fazer sua festinha sem problema!” Já eram onze e meia da
noite, o céu ainda estava claro. Dois tenistas jogavam numa quadra à distância,
mas só se ouvia o som da bolinha rebatida pelas raquetes, serviço/devolução…
Fizemos nossa refeição regada a vinho enquanto fazíamos piadas com um skinhead
lesadaço que esteve no show da noite anterior. Ele disse a Tomshek “Também sou
de Hamburgo! St Pauli! Skinhead!” Torcedor do Hamburgo, Tomshek rebateu
“Foda-se St. Pauli e fodam-se os skinheads!”. Passamos o tempo todo fazendo
variações dessa piada, dançando pateticamente e rindo até meia-noite.
13 de julho (18º dia, segunda-feira)
12h50 – Deixamos o hotel após a refeição com o resto das
guloseimas que compramos no mercado de Dijon. Agora vamos direto para
Brasparts. O tempo esfriou um pouco e o céu está cinzento.
16h22 – Estamos rodando pela Normandia, uma região da França
com clima londrino, tempo fechado e neblina. Historicamente essas condições
climáticas dificultaram a invasão alemã na 2ª Guerra Mundial e o exército teve
que enviar paraquedistas devido à dificuldade de localização de pontos de
entrada. Nessa altura, deixamos de falar inglês/alemão e começamos a usar os
clichés do tipo “Messieur Rafael”, “Ça va, Arthur?” e “Trés bien, Jef”.
17h00 – Chegamos a Brasparts, mas ainda não achamos o local
exato. Talvez no lugar de dormir (que fica a uns dez quilômetros) obtenhamos
informações. Alguns minutos depois, chegamos ao enorme complexo do Vive Le
Punk, com palco grande mas não maior do que o antigo. Tem uma cozinha e
refeitório para todas as bandas, rango frio e quente, sobremesa e frutas.
Muitos punks vieram acompanhados de seus
cães, como foi na Alemanha. À noite assistimos às bandas do dia: RESTLESS, BLATO
IDEA e THE RESTARTS, e vendemos algumas
camisetas e discos.
14 de julho (19º dia, terça-feira) – Vive Le Punk Festival –
Brasparts – França
Acordamos às 12h30, depois de terminar a noite anterior
bebendo cidra, e fomos passear pelos arredores. Primeiro fomos à uma feirinha
em uma praça onde havia várias barracas vendendo objetos usados como louças,
artigos de decoração, roupas, LPs e CDs (eu achei um CD do Judas Priest
“British Steel”, e o 1º disco do Peter Gabriel!). Depois fomos à praia,
sentamos em uma lanchonete à beira do OCEANO ATLÂNTICO! Apesar de estar frio,
havia alguns banhistas nadando, e vi um casal onde o pai tentava com dificuldade pôr uma pipa no ar para seu
casal de filhos.
Show: o Flicts subiu ao palco por volta de 20h30, depois das
bandas Restless, Working Class Zeros, Beer Beer Orchestra. Dentre alguns punks,
conversei com um chileno que disse que tocou no Necrosis, antes de eles irem ao
Brasil (1988, show que deveria contar com a presença do alemão Kreator – o
festival World’s Thrash). Ele abriu o maior sorriso quando eu disse que fui a
esse festival na Zona Leste de SP. “Canção de Batalha” foi a última música da
banda (que tocou, entre outras, a cover “Porra de Vida”, “Desmascarar”, “Vida
Fluída”, “A Todo Anarquista” etc. Assistimos um pouco do show dos Los Fastidios
(que ia varar a madrugada – de novo) e fomos dormir por volta de 1h30.
15 de julho (20º dia, quarta-feira)
10h00 – Acordamos cedo (!) - isso parece diário de um “bon
vivant” - e fomos visitar o castelo de St. Michel, no meio de um descampado, à
beira de um lago com enorme extensão de areia. Estacionamos a uns cinco
quilômetros e pegamos um ônibus circular gratis para turistas (havia muitos
asiáticos, americanos, ingleses e locais). O castelo mede 80 metros de altura e
para chegar até o ponto mais alto, teríamos que aguardar uma enorme fila indiana que não andava. Então preferimos ir até a metade de onde observamos o
horizonte por um ângulo de 45º.
16h20 e ainda não comemos nada, mas logo
encontraremos um lugar para comer os pães e queijos/frios, mais o suco e vinho
que compramos em um supermercado. Quarenta minutos depois, paramos num posto
para comer. Meia hora depois, voltamos à estrada.
19h00 – Cruzamos o rio Sena.
16 de julho (21º dia, quinta-feira) – Wageni – Bochum – Alemanha
Ontem à noite ficamos num hotel F1 da França. Antes de
dormir, montamos uma mesa de “jantar” sobre um bloco de cimento a algumas
quadras do hotel e nos servimos de vinho e lanche com presunto, queijo e geléia
de framboesa. Tomshek contou histórias de suas brigas com a polícia alemã e um
bando de neo-nazistas, e o resto de nós fez variações da piada do skinhead de
Hamburgo.
12h20 – Voltamos à estrada, passamos por Lille, depois
cruzamos a Bélgica, Holanda e chegamos à Alemanha, onde faremos os últimos três
shows.
13h30 – Entramos na Bélgica. Às 15h05 paramos num mercadinho
da Antuérpia para mijar e aproveitamos para tomar um sorvete (quando entrei no
banheio, o som ambiente tocava “Summer Night City”, do ABBA!).
15h47 – entramos
na Holanda. Mais ou menos uma hora, depois de passarmos por Eindhoven e outras
cidades holandesas, entramos na Alemanha.
Bochum – O show agradou a todos, apesar de o público não
agitar – como a maioria dos alemães. O local é pequeno mas os arredores são
arborizados. A banda, como quase sempre, abriu com “Desmascarar”, tocou ainda
“Em Nossos Corações”, “Vida Fluída” etc, e finalizou com “Festa de Santo Reis”
(Tim Maia) e “Ring Of Fire” (Johnny Cash), versões incendiárias. O local possui um
enorme jardim para convivência, mesa de bilhar e contou com a presença de
vários cães. Fim de noite, ou começo da manhã de sexta-feira. Fomos a pé para
o alojamento, um belo casarão com vários cômodos, uma sala de estar, onde uma
galera ouvia música até de madrugada. Ficamos numa espécie de varanda tomando
cerveja e conversando. Quando fomos dormir, alguém deixou o computador ligado
(de onde vinha a música) e eu ouvi “Heroes”, de David Bowie. Era um show da BBC
(2000), que postaram no Youtube. Em seguida estava começando “Absolute
Beginners”. Sinto muito, Thin White Duke mas, boa noite.
17 de julho (22º dia, sexta-feira) – Sonic Ballroom – Köln
– Alemanha
Pela manhã fomos à casa de Benny, um amigo da banda que já
esteve no Brasil. Ele já tocou guitarra em uma banda punk, e se tornou em
presário de artistas de rap. Sua casa é enorme, com um jardim repleto de
macieiras e cerejeiras.
Às 18h25, chegamos ao Sonic Ballroom, onde montamos
nosso equipamento e depois da banda de abertura, Kontrollpunkt (meio
metal-punk), o Flicts fez uma das melhores apresentações, e a plateia reagiu
muito bem. Teve até muito pogo com certa agressividade, mas sem briga. Quem
queria brigar foi o “motora”, que se desentendeu com três caras que usavam
adereços nazistas, e a briga teve que ser apartada por várias pessoas,
inclusive uma das donas do Ballroom e Mary, a produtora da turnê. Fora esse
incidente, fomos todos dormir em um quarto do 1º andar, atrás do bar, camas
individuais para todos da banda e com direito a chuveiro e banheira. Acordamos por volta de meio-dia, tomamos
banho e café. Outro velho amigo da banda, Waskow, um português criado na
Alemanha, e que já esteve no Brasil, estava conosco.
18 de julho, 13h50
(23º dia, sábado) – Kakadu – Limburg- Alemanha
Deixamos Köln rumo a Limburg, local do último show, mas
antes passamos em Bonn, na casa de Dominic, junto com Mary, para comer um
churrasco. Saímos de lá por volta de 16h e chegamos ao local do show a
menos de uma hora. Limburg também é uma bela cidade, bastante arborizada.
Conversei com várias pessoas legais, uma alemã chamada Otti, que tem uma amiga
brasileira de São Paulo. Ela foi ao Brasil, mas ficou em Mogi Mirim, onde sua
amiga tem uma casa. Conversei com um alemão que faz serviço de Terapia
Ocupacional com alcóolatras, mas também é artista e trabalha com grafitagem e
faz murais. Pudny, o “papa” do local, construiu todo o complexo há trinta anos.
Ele me disse que eu ia gostar demais de estar ali depois do show. Motivo: ele
me ofereceu haxixe. Após o show, que teve a abertura de uma banda crust com
dois vocais e um batera que é cego, conversei com Talita, uma brasileira que
mora em Limburg desde pequena. Ela é de Fortaleza.
19 de julho (24º dia, domingo)
Ontem dormimos em um alojamento muito legal, que fica no
meio de uma floresta, uma casa de madeira bastante antiga, com um monte de
pertences diversos, um piano todo empoeirado onde todos arriscaram tocar umas
músicas. Tomshek, o “motora”, tocou o hino da Alemanha, Arthur arriscou “Raining Blood”, e Jeferson tocou alguma coisa do Anthrax. O tonto aqui lembrou de
“Monolight”, Tangerine Dream (a versão ao vivo).
São 15h10 e nos preparamos para partir para o aeroporto de
Frankfurt. Hora de dizer adeus a uma aventura extraordinária para mim. Não
tenho mais como agradecer Tomshek, um cara de aspecto maluco (e é mesmo!), mMas com um coração enorme e muito engraçado.
Fuma o tempo todo, como a maioria dos alemães, bebe com responsabilidade,
sempre depois de dirigir, adora “schnaps” e café puro, é louco por mostarda e
fica fazendo piadas escatológicas o tempo todo. Quanto a todos os amigos da
banda, Martin (Rasta Knast), Ballo, Dominic, Mary, Jean, Maxim (devo ter
esquecido de mais gente!), tudo gente fina.
Muitíssimo obrigado aos irmãos Covre (Arthur e Rafael), e
especialmente Jeferson, que tornou possível essa minha experiên cia. Para você, Jefpunk!
Merci! Danke!
1:57: Fim de festa; descarregando equipamento, e o ambiente ressoava com som confuso, uma mistura de som pop com EBM (ou era minha cabeça que ainda estava zunindo pela barulheira de minutos atrás).
27 de junho (2º dia, sábado) – Private Party – Rosswein
Chegamos à bela cidade de Rosswein, para uma “festa particular” de aniversário do chef local chamado Homme. Antes teve uma peça de teatro com muito humor, e mesmo não eu entendendo alemão, ri muito, já que até os atores mal conseguiam segurar as gargalhadas enquanto liam suas falas. Ao final, o aniversariante ganhou uma bicicleta e deu algumas voltas ao redor da sala. Puta casarão com palco pequeno, um lindo bar com recepção e jardim para churrasco em um coreto, onde puseram uma enorme mesa para comer e beber. O show do Flicts teve ótima recepção, e tocaram músicas de seus álbuns e do novo EP, ‘Sonhos Corrrompidos’, “Vida Fluída”, minha predileta, além da excelente cover “Alienação Homem”, do Psykóze. Saímos do show e rumamos pra casa do ex-batera do RASTA KNAST, Balo. Tomamos banho, almoçamos e batemos papo até as 15h, quando o “motora” Tomshek trouxe a van e rumamos até o show seguinte. Como sempre, paisagens lindas de florestas ao longo da autobahn. Espero que a gente não demore a parar porque só temos pão e nada de água. Sede da porra!
28 de junho (3º dia, domingo) – Juz Riot - Lichtenstein
Flicts toca daqui a pouco em uma linda e pequena cidade, um puta lugar legal, jardim e árvores pra todo lado, parece uma cidade de sonhos. O show no Juz “Riot” foi um dos melhores, ótimo palco e som. Pelo que presenciei, todo mundo curtiu, cantou e pulou, inclusive eu. As lindas filhas do organizador, Tina e Connie, adoraram nossa presença e contribuíram com suas danças. “JZ” significa Jugendzentrum (Centro da Juventude). A bateria da câmera pifou.
Mais ou menos onze e meia da manhã, estamos na estrada, indo para Berlim, onde a banda fará seu próximo show, no Köpi. Devemos nos encontrar com “Blank” Frank e Ramses, do centro da juventude “Riot”.
12h30, paramos em um posto de gasolina, a uns noventa minutos de Berlim.
30 de junho (5º. dia, terça-feira) KöPi – Berlin
01 de julho – (6º. dia, quarta-feira -) – Substanz – Osnabrück
15h00 – Depois de viajar umas três horas, fugindo do tráfego da cidade de Berlim. Wüstersforst a 500 milhas.
16h58 – Parada a 2km de Dortmund. Pouca coisa aconteceu na van, com todos cansados demais para brincadeiras (sabe, aquelas piadas: "Doce ou salgado? Vinho ou champanhe? Punk77 ou UK82? Muito sexo ou muito dinheiro? Homem ou mulher?"). Na parada, fomos ao banheiro de uma loja de conveniências, cujo uso custa 70 centavos de euro.
02 de julho (7º. dia, quinta-feira) Lobusch – Hamburgo
16h57 – Estamos entrando em Hamburgo. No caminho, demos carona a uma garota que esteve no show anterior. Hamburgo é talvez a segunda maior cidade da Alemanha, com diversos pontos turísticos, mas tem bastante verde. Antes de montarmos o palco do Lobusch, comemos churrasco no jardim que fica nos fundos. Depois nos instalamos no 5º e último andar do prédio, no apartamento de Tomshek. Subimos pela clarabóia e andamos pelo terraço, com uma visão ampla da cidade, onde a banda tirou algumas fotos. A banda de abertura, WIRRSAL, faz um som HC-crust bem característico europeu. O local é pequeno e NÃO TEM VENTILAÇÃO. Imagine a sensação de forno dali. A apresentação do FLICTS nesse lugar foi uma das melhores da turnê, com ótima recepção do público, o som estava ótimo, e tocaram faxas de Canções de Batalha (“Juventude”, “Paulicéia”,”Briga de Bar”, “Amigos” etc. Singelos Confrontos – “E o Povo, Onde Está?”, “Latinoamérica”, além de “Vida Fluída”, do novo disco. A coisa boa é que o show acabou antes da meia-noite. Todo mundo ficou conversando e bebendo, alguns foram até à rua em frente e outros ficaram no jardim dos fundos, onde à tarde houve um churrasco. A seguir, tocamos em Bonn. Deixamos a cidade por volta de 13h05.
17h15 – Paramos num posto de gasolina onde havia um “MacMurder”, porque Rafael queria mijar, mas como não tinha moedas, resolveu mijar num mato ali perto, o vândalo! Por volta de 18h15, enfrentamos tráfego pesado quando passávamos pelo estádio do Verden Bremen. Não deu pra ver muita coisa, apenas a estrutura metálica superior, um enorme arco que deve sustentar a iluminação.
03 de julho – (8º. dia, sexta-feira) Kult 41 – Bonn
4 de julho - (9º. dia, sábado) Plastic Bomb Party – Oberhausen
5 de julho – (10º dia, domingo) AZ – Verden
6 de julho - (11º dia, segunda-feira)
15h3O – A casa do Martin tem um jardim no fundo, com cerejeiras. Peguei direto do pé! Pedro, batera do Agrotóxico, chegou há uma hora e tomamos várias cocas com rum, cerveja e comemos churrasco vegano, depois frango na brasa.
21h30 e AINDA TEM SOL se pondo.
7 de julho (12º dia, terça-feira)
Ainda em dia de folga, voltamos a Hamburgo onde o Flicts fará um show extra em outro lugar. Estamos de volta à casa de Tomshek, ao lado do Lobtsch, local do outro show. Pedro, Martin e Don talvez nos encontrem em Bochum.
São 18h10 (13h10 no Brasil). Passamos as últimas horas num pub totalmente vazio, pondo fichas em uma jukebox: ouvimos de Elvis a New Model Army, passando por vários estilos, pop, funk e disco. Choveu muito nessa noite, e antes de ir para casa (apê do Tomshek), passamos pela Reeperbahn, a zona dos bordéis e puteiros. Típica cena de cinema europeu: esfalto molhado pós-chuva e mulheres semi-nuas nas vitrines e carros passando lentamente com os vidros baixados.
8 de julho (13º dia, quarta-feira)
16h08 – Hoje, dia do show (que foi confirmado), fomos ao estádio do St. Pauli. Jeferson e Arthur compraram camisetas e brindes. A grana está acabando e a banda precisa “fazer” dinheiro nos próximos shows.
20h00 – Chegamos ao local da apresentação, um enorme labirinto de trailers em um terreno com jardim, vários ambientes, um bar ao ar livre, e o próprio local se chama “Eldorado”, pequeno mas aconchegante. A banda começou a tocar às 20h45 e ainda chovia muito no começo, depois parou. Foi mais uma noite animada, e ainda encontramos Alex, da loja True Rebel, além de um colombiano que já esteve no Brasil (também chamado Alex), e um monte de punks que havíamos encontrado no pub perto da casa de Tomshek. Boa noite.
9 de julho (14º dia, quinta-feira) The Clearing Barrel – Kaiserslautern
Depois de dormir pela última vez no apê de Tomshek – que fica no 5º andar, sem elevador – saímos de Hamburgo perto de dez da manhã, com destino a Kaiserslautern. Faz sol mas venta muito.
16h54 – Chegamos a Kaiserslautern, uma bela cidade, onde muitas casas e empresas usam energia solar. Inclusive eu conversei com um punk inglês de Liverpool no pub de Hamburgo (dei-lhe um boné do Flicts), que depois foi ao Eldorado. Ele me disse que é engenheiro e lida com energia solar. O local de show se chama The Clearing Barrel e é uma pequena casa que serve café, cerveja e refeições veganas. Foi aberto em 2012 no centro da cidade, em meio a uma base militar Americana, e ainda serve de abrigo alternativo para aconselhamento de soldados veteranos de guerra e suas famílias sobre seus direitos e engajamento político anti-militarismo. Foi nesse lugar que lembro de ter tomado o melhor café da manhã de toda a turnê.
10 de julho (15º dia, sexta-feira) – Antinational Fest – Fresse Sur Moselle - França
13h30 – Deixamos Kaiserslautern com céu azul, depois de uma noite agradável. O show da noite anterior começou às 20h30, mais ou menos, púlico tímido no começo. Alguns adolescentes preferiram ficar sentados num sofá com a cabeça baixa olhando seus celulares. Duas meninas começaram a dançar, eu me juntei a elas, e uma terceira entrou também. O set foi enxuto, abrindo com “Desmascarar”, e terminou com “Canção de Batalha” e a cover “Ring Of Fire”, de Johnny Cash. Agora rumamos para a França, país até então desconhecido para mim.
11 de julho (16º dia, sábado) Les Tanneries – Dijon – França
Saímos de lá meio-dia. Agora rumo a Dijon, para tocar com Simbiose e os italianos dos LOS FASTIDIOS.
15h20 – Chegada a Dijon debaixo de muito sol, céu azul. Cidade de aspecto de interior, ruas estreitas e muitas casas antigas. Espero que a gente possa experimentar algum vinho, que ainda não tomamos. Foi só cerveja.
12 de julho (17º dia, domingo)
12h53 – O show de ontem foi bom, com um grande palco e ótimo som. Tomshek sabia que o local havia mudado mas lhe deram o endereço do antigo local, por isso paramos diante de um portão trancado de um edifício meio em processo de demolição. Sorte nossa que havia um punk francês por perto e nos orientou até o novo local. Mas no caminho pegamos um trânsito lento porque os próprios organizadores faziam uma carreata até lá, acompanhados pela polícia local, até a nova casa que fica a uns cinco quarteirões de distância. Tudo deu certo. O Flicts começou a tocar lá pelas 23h00, (o sol se pôs às 21h45! Falo isso porque fui dar uma volta lá fora por causa do ambiente abafado e presenciei a claridade àquela hora), abrindo para o Simbiose e os Los Fastidios. Armei minha mesa de “merch” bem perto do palco e deu para ver todos dali mesmo. Houve um acordo com a ordem das bandas e os italianos devem ter acabado sua apresentação já entrando pela madrugada. Ao final ficamos conversando, puvindo som ambiente enquanto bebíamos (novidade!) e conhecemos uma brasileira chamada Júlia, que mora em Dijon. Ela curte mais o som crust do que punk rock. Logo depois fomos para o apartamento de Maxim, um dos organizadores do festival, tomamos banho e um café. Às 14h45, partimos para a estrada. Devemos parar no meio do caminho, pois será uma longa viagem.
15h45 – Paramos num posto de caminhões onde encontramos uam espécie de parque com mesas e bancos sob umas árvores e comemos nossa refeição composta de pão, queijo e mostarda, maçã e banana, e suco. Nós quatro bancamos os vândalos e fomos mijar no mato, já que não havia banheiro à vista, somente uns carros e vários caminhões de combustível à nossa volta. Uns vinte minutos depois, de volta à estrada.
19h00 – Chegamos a Le Mans e nos hospedamos em um daqueles hotéis da rede F1. Arthur, Rafael e eu ficamos em um quarto e Jef fez companhia a Tomshek em outro. Como era cedo, fomos procurar um lugar para fazer um churrasco com as carnes que compramos e a grelha de Tomshek. Depois de rodar alguns quilômetros, achamos um parque público com quadra de tênis e havia um enorme estacionamento onde paramos e montamos a churrasqueira e os acompanhamentos. Em menos de um minuto avistamos um sujeito de uniforme preto vindo de longe em nossa direção e falando a um celular. À medida que ele se aproximava, a gente especulou se seria um policial ou segurança… e a grelha já produzia muito fumaça… Ele andava meio de lado e não olhava para a gente, e em um momento se virou de costas. Eu li “securité” no seu uniforme. Todos nós pensamos “Fudeu!” Mas ele desligou o celular e perguntou em francês: “Estão fazendo um churrasquinho?” O professor Rafael respondeu “C’est possible, no?” (eu me segurei pra não rir na hora!). O segurança abriu um sorriso e respondeu algo do tipo “Podem fazer sua festinha sem problema!” Já eram onze e meia da noite, o céu ainda estava claro. Dois tenistas jogavam numa quadra à distância, mas só se ouvia o som da bolinha rebatida pelas raquetes, serviço/devolução… Fizemos nossa refeição regada a vinho enquanto fazíamos piadas com um skinhead lesadaço que esteve no show da noite anterior. Ele disse a Tomshek “Também sou de Hamburgo! St Pauli! Skinhead!” Torcedor do Hamburgo, Tomshek rebateu “Foda-se St. Pauli e fodam-se os skinheads!”. Passamos o tempo todo fazendo variações dessa piada, dançando pateticamente e rindo até meia-noite.
13 de julho (18º dia, segunda-feira)
12h50 – Deixamos o hotel após a refeição com o resto das guloseimas que compramos no mercado de Dijon. Agora vamos direto para Brasparts. O tempo esfriou um pouco e o céu está cinzento.
16h22 – Estamos rodando pela Normandia, uma região da França com clima londrino, tempo fechado e neblina. Historicamente essas condições climáticas dificultaram a invasão alemã na 2ª Guerra Mundial e o exército teve que enviar paraquedistas devido à dificuldade de localização de pontos de entrada. Nessa altura, deixamos de falar inglês/alemão e começamos a usar os clichés do tipo “Messieur Rafael”, “Ça va, Arthur?” e “Trés bien, Jef”.
17h00 – Chegamos a Brasparts, mas ainda não achamos o local exato. Talvez no lugar de dormir (que fica a uns dez quilômetros) obtenhamos informações. Alguns minutos depois, chegamos ao enorme complexo do Vive Le Punk, com palco grande mas não maior do que o antigo. Tem uma cozinha e refeitório para todas as bandas, rango frio e quente, sobremesa e frutas. Muitos punks vieram acompanhados de seus cães, como foi na Alemanha. À noite assistimos às bandas do dia: RESTLESS, BLATO IDEA e THE RESTARTS, e vendemos algumas camisetas e discos.
14 de julho (19º dia, terça-feira) – Vive Le Punk Festival – Brasparts – França
Acordamos às 12h30, depois de terminar a noite anterior bebendo cidra, e fomos passear pelos arredores. Primeiro fomos à uma feirinha em uma praça onde havia várias barracas vendendo objetos usados como louças, artigos de decoração, roupas, LPs e CDs (eu achei um CD do Judas Priest “British Steel”, e o 1º disco do Peter Gabriel!). Depois fomos à praia, sentamos em uma lanchonete à beira do OCEANO ATLÂNTICO! Apesar de estar frio, havia alguns banhistas nadando, e vi um casal onde o pai tentava com dificuldade pôr uma pipa no ar para seu casal de filhos.
Show: o Flicts subiu ao palco por volta de 20h30, depois das bandas Restless, Working Class Zeros, Beer Beer Orchestra. Dentre alguns punks, conversei com um chileno que disse que tocou no Necrosis, antes de eles irem ao Brasil (1988, show que deveria contar com a presença do alemão Kreator – o festival World’s Thrash). Ele abriu o maior sorriso quando eu disse que fui a esse festival na Zona Leste de SP. “Canção de Batalha” foi a última música da banda (que tocou, entre outras, a cover “Porra de Vida”, “Desmascarar”, “Vida Fluída”, “A Todo Anarquista” etc. Assistimos um pouco do show dos Los Fastidios (que ia varar a madrugada – de novo) e fomos dormir por volta de 1h30.
15 de julho (20º dia, quarta-feira)
10h00 – Acordamos cedo (!) - isso parece diário de um “bon vivant” - e fomos visitar o castelo de St. Michel, no meio de um descampado, à beira de um lago com enorme extensão de areia. Estacionamos a uns cinco quilômetros e pegamos um ônibus circular gratis para turistas (havia muitos asiáticos, americanos, ingleses e locais). O castelo mede 80 metros de altura e para chegar até o ponto mais alto, teríamos que aguardar uma enorme fila indiana que não andava. Então preferimos ir até a metade de onde observamos o horizonte por um ângulo de 45º.
16h20 e ainda não comemos nada, mas logo encontraremos um lugar para comer os pães e queijos/frios, mais o suco e vinho que compramos em um supermercado. Quarenta minutos depois, paramos num posto para comer. Meia hora depois, voltamos à estrada.
19h00 – Cruzamos o rio Sena.
16 de julho (21º dia, quinta-feira) – Wageni – Bochum – Alemanha
Ontem à noite ficamos num hotel F1 da França. Antes de dormir, montamos uma mesa de “jantar” sobre um bloco de cimento a algumas quadras do hotel e nos servimos de vinho e lanche com presunto, queijo e geléia de framboesa. Tomshek contou histórias de suas brigas com a polícia alemã e um bando de neo-nazistas, e o resto de nós fez variações da piada do skinhead de Hamburgo.
12h20 – Voltamos à estrada, passamos por Lille, depois cruzamos a Bélgica, Holanda e chegamos à Alemanha, onde faremos os últimos três shows.
13h30 – Entramos na Bélgica. Às 15h05 paramos num mercadinho da Antuérpia para mijar e aproveitamos para tomar um sorvete (quando entrei no banheio, o som ambiente tocava “Summer Night City”, do ABBA!).
15h47 – entramos na Holanda. Mais ou menos uma hora, depois de passarmos por Eindhoven e outras cidades holandesas, entramos na Alemanha.
Bochum – O show agradou a todos, apesar de o público não agitar – como a maioria dos alemães. O local é pequeno mas os arredores são arborizados. A banda, como quase sempre, abriu com “Desmascarar”, tocou ainda “Em Nossos Corações”, “Vida Fluída” etc, e finalizou com “Festa de Santo Reis” (Tim Maia) e “Ring Of Fire” (Johnny Cash), versões incendiárias. O local possui um enorme jardim para convivência, mesa de bilhar e contou com a presença de vários cães. Fim de noite, ou começo da manhã de sexta-feira. Fomos a pé para o alojamento, um belo casarão com vários cômodos, uma sala de estar, onde uma galera ouvia música até de madrugada. Ficamos numa espécie de varanda tomando cerveja e conversando. Quando fomos dormir, alguém deixou o computador ligado (de onde vinha a música) e eu ouvi “Heroes”, de David Bowie. Era um show da BBC (2000), que postaram no Youtube. Em seguida estava começando “Absolute Beginners”. Sinto muito, Thin White Duke mas, boa noite.
17 de julho (22º dia, sexta-feira) – Sonic Ballroom – Köln – Alemanha
Pela manhã fomos à casa de Benny, um amigo da banda que já esteve no Brasil. Ele já tocou guitarra em uma banda punk, e se tornou em presário de artistas de rap. Sua casa é enorme, com um jardim repleto de macieiras e cerejeiras.
Às 18h25, chegamos ao Sonic Ballroom, onde montamos nosso equipamento e depois da banda de abertura, Kontrollpunkt (meio metal-punk), o Flicts fez uma das melhores apresentações, e a plateia reagiu muito bem. Teve até muito pogo com certa agressividade, mas sem briga. Quem queria brigar foi o “motora”, que se desentendeu com três caras que usavam adereços nazistas, e a briga teve que ser apartada por várias pessoas, inclusive uma das donas do Ballroom e Mary, a produtora da turnê. Fora esse incidente, fomos todos dormir em um quarto do 1º andar, atrás do bar, camas individuais para todos da banda e com direito a chuveiro e banheira. Acordamos por volta de meio-dia, tomamos banho e café. Outro velho amigo da banda, Waskow, um português criado na Alemanha, e que já esteve no Brasil, estava conosco.
18 de julho, 13h50 (23º dia, sábado) – Kakadu – Limburg- Alemanha
Deixamos Köln rumo a Limburg, local do último show, mas antes passamos em Bonn, na casa de Dominic, junto com Mary, para comer um churrasco. Saímos de lá por volta de 16h e chegamos ao local do show a menos de uma hora. Limburg também é uma bela cidade, bastante arborizada. Conversei com várias pessoas legais, uma alemã chamada Otti, que tem uma amiga brasileira de São Paulo. Ela foi ao Brasil, mas ficou em Mogi Mirim, onde sua amiga tem uma casa. Conversei com um alemão que faz serviço de Terapia Ocupacional com alcóolatras, mas também é artista e trabalha com grafitagem e faz murais. Pudny, o “papa” do local, construiu todo o complexo há trinta anos. Ele me disse que eu ia gostar demais de estar ali depois do show. Motivo: ele me ofereceu haxixe. Após o show, que teve a abertura de uma banda crust com dois vocais e um batera que é cego, conversei com Talita, uma brasileira que mora em Limburg desde pequena. Ela é de Fortaleza.
19 de julho (24º dia, domingo)
Ontem dormimos em um alojamento muito legal, que fica no meio de uma floresta, uma casa de madeira bastante antiga, com um monte de pertences diversos, um piano todo empoeirado onde todos arriscaram tocar umas músicas. Tomshek, o “motora”, tocou o hino da Alemanha, Arthur arriscou “Raining Blood”, e Jeferson tocou alguma coisa do Anthrax. O tonto aqui lembrou de “Monolight”, Tangerine Dream (a versão ao vivo).
São 15h10 e nos preparamos para partir para o aeroporto de Frankfurt. Hora de dizer adeus a uma aventura extraordinária para mim. Não tenho mais como agradecer Tomshek, um cara de aspecto maluco (e é mesmo!), mMas com um coração enorme e muito engraçado. Fuma o tempo todo, como a maioria dos alemães, bebe com responsabilidade, sempre depois de dirigir, adora “schnaps” e café puro, é louco por mostarda e fica fazendo piadas escatológicas o tempo todo. Quanto a todos os amigos da banda, Martin (Rasta Knast), Ballo, Dominic, Mary, Jean, Maxim (devo ter esquecido de mais gente!), tudo gente fina.
Muitíssimo obrigado aos irmãos Covre (Arthur e Rafael), e especialmente Jeferson, que tornou possível essa minha experiên cia. Para você, Jefpunk! Merci! Danke!
(FLICTS: Arthur – guitarra/vocais; Rafael – bateria/vocais de apoio; Jeferson – baixo/vocais de apoio)

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