Friday, April 17, 2026
BLACK SABBATH 2
ATO IDIOTA 9
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31/3/2026 - terça-feira (14h45)
BLACK SABBATH
SATANISTAS BÉLICOS
"A guerra é o verdadeiro satanismo, e os políticos os verdadeiros satanistas. Todos esses caras que comandam os bancos e dominam o mundo, tentando obrigar a classe operária a lutar nas guerras por eles."
- Geezer Butler [Classic Albums - Black Sabbath: Paranoid, 2010]
Foto: os atores Rick Jason e Vic Morrow, no seriado de TV Combat!
Thursday, April 16, 2026
BULLS ON PARADE
"DEIXE DE RODEIOS"
ABUSO ANIMAL
DIVERSÃO PELO MAL
E FALTA PUNIÇÃO
É ASSIM QUE ELES SÃO
DEIXE DE RODEIOS
"ESPORTE" UMA OVA!
POR ISSO EU OS ODEIO
VOCÊS MERECEM A COVA!
SANGUE E AREIA
EMOÇÃO DISFARÇADA
ISSO TUDO APERREIRA
DERRUBAM O TOURO NA LAÇADA
GANÂNCIA VOLTA E MEIA
DESSA GENTE DESGRAÇADA
DEIXE DE RODEIOS
"ESPORTE" UMA OVA!
POR ISSO EU OS ODEIO
VOCÊS MERECEM A COVA!
VOCÊS MERECEM A COVA!
VOCÊS MERECEM A COVA!
VOCÊS MERECEM A COVA!
CONVERSA MOLE
O título desse álbum da banda americana de Boston, Aerosmith, pode ser traduzido ao pé da letra, que seria uma expressão, "noite de rotina" ou fazer um trabalho rotineiro, cansativo e chato, como deve ser trabalhar nas minas de carvão - vide a foto; mas é na verdade uma antístrofe (em inglês: spoonerism), ou seja, você embaralha a frase (sem acrescentar nem tirar nenhuma letra), e aparece outra com ou sem nenhum sentido: RIGHT IN THE NUTS (direto nas bolas!).
Mas dá para traduzir algumas antístrofes, o que não fica ao pé da letra, e requer um jogo de cintura!
A CRUSHING BLOW
Antístrofe: BLUSHING CROW
UM GOLPE ESMAGADOR
Antístrofe:
PEGADOR GUELA MESMO
UM CORVO CORADO vira
"MURO CORCOVADO"
(ou "UM RODO CORCOVA")
A banda punk NoFx tem um disco com o curioso título
"PUNK IN DRUBLIC" (que diabos é drublic?!) uma antístrofe para
DRUNK IN PUBLIC (Bêbado em Público)
Já em português, temos:
TROCAR AS BOLAS - BOLAR AS TROCAS
TOCAR VIOLÃO - VIOLAR TOCÃO
O MEL CONSERVA - CONVERSA MOLE
BOLA DE GUDE - GULA DE BODE
Wednesday, April 15, 2026
E = mc2 = VDGG
"Pioneers Over c" (por Dr. Matthew Kean)
Eis uma pequena explicação relacionada à canção "Pioneers Over c", do álbum H to He Who Am the Only One.
"c" (tem de ser em letra minúscula) é a velocidade da radiação eletromagnética (ou a luz) que, de acordo com a Teoria da Relatividade de Einstein, é o limite da velocidade máxima no Universo.
A velocidade da luz é de aproximadamente 180.000 milhas por segundo, de modo que a luz do sol (distante 93 milhões de milhas) leva cerca de 500 segundos (ou 8 minutos) para chegar à Terra.
Portanto, se o Sol apagasse de repente, passariam-se 8 minutos até que alguém percebesse. As estrelas estão tão distantes entre si que, mesmo viajando na velocidade da luz, levariam mais de quatro anos para se alcançar a mais próxima. Para se viajar mais rápido que a luz (ou mais corretamente, viajar da origem ao destino em um tempo mais curto), a gente deixaria esse universo e viajaria em uma realidade diferente, comumente conhecida como hiper-espaço, onde se aplicam diferentes leis da física. Exatamente como se chega ao hiper-espaço ou como é quando você estiver lá, ninguém sabe.
Na canção, Peter Hammill se descreve como um dos "pioneiros além do c", ou seja, a primeira tripulação de uma nave espacial a tentar viajar pelo hiper-espaço e portanto mais rápida que a velocidade da luz (além do c).
Como interpretar exatamente a letra, vai de cada indivíduo. Para mim, ela sugere que, tendo conseguido entrar no hiper-espaço, as coisas não correm conforme foi planejado, e ele fica preso lá e deixa de existir no mundo real - não morto, pois ainda consegue raciocinar. (c também é a mesma letra que aparece na equação E=mc2, mas não irei mexer nesse vespeiro, basta dizer que essas são as equações em relação à contracapa do disco "H to He..."
Na semana que vem: "Red Shift" para iniciantes.
[Fonte: fanzine 'Pilgrims' #8, agosto de 1990]
ATO IDIOTA 7
Os ingleses são diferentes
Na Inglaterra, é tudo ao contrário.
Aos domingos na Europa, até a pessoa mais pobre veste seu melhor terno, tenta parecer respeitável, e ao mesmo tempo a vida no país se torna alegre e divertida; na Inglaterra, até o lorde mais rico ou o fabricante de motores se veste com os mais peculiares trapos, não faz a barba, e o país se torna tedioso e triste.
Na Europa, existe um assunto que deve ser evitado - o clima; na Inglaterra, se você não repetir a frase “Belo dia, não?” ao menos duzentas vezes ao dia, consideram você uma pessoa tediosa. Na Europa, os jornais de domingo saem às segundas; na Inglaterra - um país de peculiaridades exóticas - eles saem aos domingos. Na Europa, as pessoas usam um garfo como se fosse uma pá; na Inglaterra, os ingleses o viram para baixo e empurram tudo - inclusive as ervilhas - por cima.
Em um ônibus europeu que se aproxima de um ponto de parada, o motorista toca a campainha se ele quiser que seu carro siga sem parar; na Inglaterra, você toca a campainha se quiser que o ônibus pare.
Na Europa, os gatos de rua são julgados individualmente por seu mérito - alguns são amados, outros são apenas respeitados; na Inglaterra, eles são universalmente idolatrados como no Antigo Egito. Na Europa, as pessoas comem boa comida; na Inglaterra, as pessoas têm bons modos à mesa.
Na Europa, as pessoas letradas adoram citar Aristótele, Horácio, Montaigne, e exibem seu conhecimento; na Inglaterra, apenas pessoas analfabetas exibem seu conhecimento, ninguém cita escritores de latim ou grego durante uma conversação, a menos que jamais os tenham lido.
Na Europa, quase todas as nações, sejam pequenas ou grandes, tem declarado abertamente em qualquer ocasião que ela é superior às outras nações; os ingleses travam heróicas guerras para combater essas ideias perigosas sem jamais mencionar qual é realmente a raça mais superior do mundo.
Os povos europeus são sensíveis e suscetíveis; os ingleses levam tudo com um requintado senso de humor - eles apenas ficam ofendidos se você lhes disser que não têm nenhum senso de humor. Na Europa, a população consiste de uma pequena porcentagem de criminosos, pequena porcentagem de gente honesta, e o resto é uma vaga transição entre ambas; na Inglaterra, você encontra uma pequena porcentagem de criminosos e o resto é gente honesta. Por outro lado, as pessoas na Europa ou lhe falam a verdade ou mentem; na Inglaterra, elas raramente mentem, mas nem de longe sonham em lhe dizer a verdade.
Muitos europeus acham que a vida é um jogo; os ingleses acham que o críquete é um jogo.
[Fonte: ‘How to be an Alien’, por George Mikes]
Ilustração: A. Wallis Mills, "Bertie Wooster & Jeeves, 1922"
PRÓ-VIDA
GEORGE CARLIN - ABORTO
(“Back in Town”, Beacon Theater, NY, março de 1996)
Puxa, esses conservadores são umas figuras, não é mesmo? Eles são todos a favor dos não nascidos. Eles fazem qualquer coisa pelos não nascidos. Mas assim que nasce, você tem que se virar. Os conservadores pró-vida são obcecados com o feto desde a concepção até o nono mês. Depois disso eles não querem saber de você. Nada de nada. Nem pré-natal, nada de creche, nenhuma garantia, nem merenda escolar, vale-refeição, nem seguro saúde, nada de pitibiriba, chongas. Se você é pré-nascido, tudo bem; se é pré-escolar, está fodido.
Os conservadores estão cagando pra você até que atinja a “idade militar”. Aí eles acham que você serve. Do jeito que eles queriam, era o que estavam procurando. Os conservadores querem bebês vivos para que possam transformá-los em soldados mortos. Pró-vida… Essa gente não é pró-vida, estão matando os médicos! Que espécie de pró-vida é essa? Eles fazem qualquer coisa para salvar um feto, mas se crescer e virar um médico, eles podem matá-lo? Eles não são pró-vida. Sabe o que eles são? São anti-mulher. Simples assim, anti-mulher, não gostam das mulheres. Eles acreditam que a função principal da mulher é a de funcionar como égua de criação para o estado.
Pró-vida… Você não vê muitas dessas mulheres brancas anti-aborto se oferecendo para receber transplante de fetos de negros em seus úteros, vê? Não, você não as vê adotando muitos bebês de viciadas em crack, vê? Não, isso é uma coisa que Cristo faria. E você não vai ver muita dessa gente a favor da vida se encharcando de querosene e ateando fogo ao corpo. Sabe, os moralmente religiosos no Vietnã do Sul sabiam como armar um maldito protesto, não é?! Eles sabiam organizar uma porra de protesto! Meta fogo em si mesmo! Tenham dó, seus moralistas, queremos ver uma fumacinha. Pra combinar com aquela queimação no seu estômago.
Eis outra questão que tenho: como é que, quando somos nós, é aborto, e quando é um frango, é omelete? Será que somos tão melhores do que frangos de uma hora pra outra? Quando que isso aconteceu, que passamos os frangos em bondade? Citem seis maneiras em que somos melhores do que os frangos… Viu, ninguém consegue! Sabe por quê? Porque os frangos são “gente” decente. Você não vê frangos por aí em gangues de traficantes, né? Não, você não vê um frango amarrando um cara numa cadeira e ligando uma bateria de carro nas bolas dele, vê? Quando foi a última vez soube que um frango chegou em casa do trabalho e deu uma surra em sua galinha, hein? Isso não rola. Porque frangos são gente fina.
Mas vamos voltar a essa besteira anti-aborto. Agora, um feto é um ser humano? Essa parece ser a questão principal. Bem, se um feto é um ser humano, como é que o censo não os contabiliza? Se um feto é um ser humano, por que quando há um aborto espontâneo, eles não fazem um funeral? Se um feto é um ser humano, por que se diz “temos dois filhos e um a caminho” ao invés de dizer “temos três filhos?” As pessoas dizem que a vida começa na concepção, eu digo que a vida começou cerca de um bilhão de anos atrás e é um processo contínuo. Contínuo, só que continua rolando. Rolando, rolando, rolando constantemente.
E quer saber mais? Escute, você pode voltar mais atrás ainda. Que tal os átomos de carbono? Hein? A vida humana não poderia existir sem o carbono. Então não é possível que talvez não devêssemos estar queimando todo esse carvão? Só estou procurando um pouquinho de consistência aqui nesses argumentos anti-aborto. Veja bem, as pessoas realmente radicais vão lhe dizer que a vida começa na fertilização, quando o esperma fertiliza o óvulo. O que normalmente uns momentos depois o homem diz “Puxa, querida, eu ia tirar, mas o telefone tocou e me assustou.” Fertilização.
Mas mesmo depois que o óvulo é fertilizado, ainda são seis ou sete dias antes que ele chegue ao útero e a gravidez começa, e nem todo óvulo chega tão longe. Oitenta por cento dos óvulos fertilizados da mulher são lavados e expulsos do corpo dela uma vez por mês durante aqueles maravilhosos poucos dias que ela tem. Eles vão parar em guardanapos sanitários, e ainda assim são óvulos fertilizados. Então, basicamente o que essa gente anti-aborto está nos dizendo é que qualquer mulher que teve mais de uma menstruação é uma assassina em série! Consistência, consistência. Ei, ei, se eles querem mesmo um papo sério, o que dizer de todo o esperma que é desperdiçado quando o estado executa um homem condenado, e um desses caras a favor da vida que está assistindo, ejacula nas calças, hein? Lá está um cara com sua cueca samba-calção cheia de Vinnies e Debbies, e ninguém fala nada para o cara. Nem toda ejaculação merece um nome.
Agora, por falar em consistência, os católicos - coisa que eu era até chegar à idade da razão. Os católicos e outros cristãos são contra abortos, e são contra homossexuais. Bem, quem tem menos abortos do que os homossexuais?! Deixem essa turma em paz, pelamor!! Eis uma categoria inteira de pessoas que com certeza jamais terá um aborto! E os católicos e cristãos os estão apenas mandando pra escanteio! Dá pra pensar que eles dariam uns aliados naturais. Como achar consistência na religião? E por falar nos meus amigos, os católicos, quando John Cardinal O’Connor de Nova Iorque, e alguns desses outros cardeais e bispos tiverem suas primeiras gravidezes e primeiras dores de parto e criarem alguns filhos com salário mínimo, então ficarei feliz de saber o que eles têm a dizer sobre o aborto. Com certeza vai ser interessante. Instrutivo, também. Mas, enquanto isso, o que eles deviam estar fazendo é dizer a esses padres que fizeram voto de castidade para não porem as mãos nos coroinhas! Olha essa mão-boba, padre! Quando Jesus disse “Que venham a mim todas as criancinhas ”, não era disso que ele estava falando!
Então, sabe o que eu falo para essa gente que é contra o aborto? Eu falo “Ei, se vocês acham que um feto é mais importante do que uma mulher, tente obrigar um feto a lavar as manchas de cocô da sua cueca. Sem direito a salário e nem pensão.” Digo a elas “Pensem num aborto como limites de prazo. É isso aí. Limites de prazo biológico.
SALÁRIO DO MEDO
A INSANA FORÇA DE VONTADE DOS CONDENADOS EM SORCERER, DE WILLIAM FRIEDKIN
BRAD GULLICKSON, 21 DE JUNHO, 2017
Quarenta anos atrás desde seu quase abortado lançamento, Sorcerer é o filme de uma tola aventura para nossos tempos.
Quatro monstruosos rebotalhos se condenam em uma paisagem infernal da América do Sul e imediatamente procuram se livrar da prisão em que eles mesmos se meteram. O filme de William Friedkin é frequentemente rotulado erroneamente como um pesadelo niilista do destino, mas quarenta anos após seu infeliz lançamento, na sombra de “Star Wars”, não posso deixar de encontrar inspiração na força implacável de vontade de seus heróis condenados. Eis uma narrativa que constantemente cospe na cara de seus protagonistas, incita-os a ir adiante, e os tortura alegremente enquanto eles marcham teimosos para o abismo. Por que seguir em frente? Não deveríamos todos acabar logo com isso e cometer suicídio? Essa arrogância para continuar na trilha do desastre provável é o que mantém viva a aventura humana. Chame de ego, espírito, bravura, ou simples terror do fim; “Sorcerer” definitivamente não tem lugar para heróis ou vilões. Eis a celebração dos desesperados.
Após o golpe certo de Operação França e O Exorcista, Friedkin poderia ter feito qualquer filme que quisesse. No filme de Henri-Georges Clouzot, "O Salário do Medo” (Le Salaire de La Peur), ele encontrou um mundo alimentado pela cooperação diante do ódio. O diretor viu uma oportunidade de realçar os apuros dos caídos em um microcosmo de metáfora de como nós idiotas ousamos existir uns com os outros. Infelizmente, a era da Nova Hollywood que começou em Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas (1967) foi abocanhada pelo “Tubarão” e completamente obliterada pela Estrela da Morte. Como elaborou essa semana nossa companheira Natalie Mokry, os arrasa-quarteirões chegaram e não há mais espaço para um suspense existencial [ver também “Encurralado” (Duel), de Spielberg].
A abertura do filme começa com um ataque de sintetizadores da banda alemã Tangerine Dream [“Betrayal”, também usada no trailer de Warriors, dois anos depois]. Por sobre um totem latino-americano que tem uma incrível semelhança com o Pazuzu de O Exorcista, o título rasga a tela no golpe de um pincel em letras brancas garrafais. Sorcerer saboreia nas introduções para seus quatro exilados protagonistas com uma série de vinhetas detalhando como cada cretino seguiu seu caminho pecaminoso para o sul. O assassino de Francisco Rabal entra em um apartamento em Vera Cruz e dispara dois tiros com silenciador no inquilino. Em Jerusalém, o terrorista de Amidou aparece disfarçado para detonar uma explosão em meio a uma multidão na rua. O marido apaixonado de Bruno Cremer foge da polícia em Paris antes de ser preso por suas práticas fraudulentas. Finalmente, em Nova Jersey, Roy Scheider escapa por pouco da morte depois de roubar uns trocados em um jogo de carteado mafioso. Cada homem está simplesmente procurando um lugar nesse mundo e fracassa redondamente.
Com o pouco dinheiro que possuem, cada um dos quatro gasta em proteção em um remoto vilarejo da América do Sul. Uma vez lá, eles passam seus dias presos a trabalhos ínfimos, doses de bebidas duvidosas que são seu único prazer vomitivo. O adiamento da maldição virá na forma de uma morte pelos nazistas ou a execução pelos verdugos de um governo corrupto. Invisível aos poderosos, esse nível de encarceramento auto-infligido nunca foi feito para ser temporário. Aqui, homens precisam fugir do túmulo ou afundar mais ainda.
Quando uma plataforma de petróleo é sabotada durante a noite, um fogaréu descontrolado surge da terra. Procurando combater esse incêndio, a empresa American Oil Company busca voluntários para transportar uma carga de dinamite instável da base das operações a trezentos quilômetros de distância. Aí é que entram nossos quatro párias desprezíveis. Desesperados o bastante para aceitar tal missão suicida, eles montam em dois caminhões enormes carregados de nitroglicerina. Sua jornada é quase uma expedição mítica que permite a Friedkin se esbaldar em tensão.
Dizer que as filmagens de”Sorcerer" foram intensas é até risível. Concebido originalmente como um mini-filme de meio milhão de dólares antes de assumir o drástico The Devil’s Triangle, "Sorcerer" teve seu orçamento aumentado de quinze para vinte milhões de dólares. Isso fez com que a parceria entre a Paramount e a Universal Pictures desse conta do trabalho. Ele quebrou o pau com seu cinematógrafo, afastou o sindicato de caminhoneiros, e brigou para montar o elenco. Filmado principalmente na República Dominicana, Friedkin não conseguiu convencer o astro Steve McQueen a se juntar a ele nas selvas próximas aos Estados Unidos, e Scheider (do recente “Operação França”) foi finalmente escolhido como ator principal. Quem sabe se isso teve algum resultado duradouro nas bilheterias – nada poderia enfrentar o turbilhão de atenção gerada pelo sucesso de Star Wars.
A trilha sonora, do trio alemão Tangerine Dream foi encomendada antes das filmagens. O tecladista Peter Baumann aprovou o resultado final, mas não gostou do modo como ela foi usada: “Achamos que, se fosse usada como queríamos, ela se encaixaria perfeitamente no filme, que me decepcionou muito." Edgar Froese acrescenta: “Nós adoramos o roteiro, que nos foi dado bem antes de o filme ser rodado. Pediram-nos para compô-la sem termos visto o filme. Considero Friedkin um dos maiores diretores, mas a edição final e o modo como usou nossa música nos últimos cinco minutos, com um “fade in/out” nos pareceu totalmente impraticável.”
O rosto de Scheider praticamente define a maneira de atuação que nós cineastas estamos tão desesperados em elogiar dos anos de 1970. Cercado pelos sorrisos belos e suaves de atores modernos como Chris Pine, Chris Evans, e Chris Hemsworth (hashtag seu Chris favorito!), a cara de Scheider imediatamente solidifica o nível de realidade para uma plateia contemporânea. Eis um ator incapaz da inautenticidade, e vivenciando a situação de seu peso faz você questionar o nível da verdade fabricada que aceitamos de tão boa vontade nos palcos atuais. Esse é o ser humano deteriorado enfrentando o lado da luz e das trevas, e sua vontade de sobreviver é uma assombrosa lembrança de nossa própria mortalidade.
"Sorcerer" teria se perdido no tempo não fosse pelo próprio diretor. Ao passo que o filme ganhou certa notoriedade no circuito “cult”, a maioria apenas assistiu uma versão extremamente editada (ou “versão mutilada”, como o próprio Friedkin castiga em sua carta que acompanha o recente lançamento em Blu-ray). Essa é uma obra de arte bastante pessoal, aquela em que seu criador veementemente acredita décadas depois de sua distribuição tímida. Quarenta anos se passaram, e o formato atual à sua disposição em disco ou “por demanda” simplesmente existe porque Friedkin batalhou pelos direitos. Ele encontrou ajuda na Warner Home Video (o terceiro estúdio responsável pela existência de "Sorcerer"), e o filme está sendo redescoberto – ou na verdade descoberto pela primeira vez.
Em uma era na qual as grandes cadeias de cinema vão além das fronteiras da temporada de verão, mas ainda fracassam em oferecer um escapismo que todos nós estamos desesperadamente aguardando nesse horrendo clima político, o apelo de Sorcerer é a vontade de viver diante do desespero total. Não estou certo se cabe a mim atacar os elementos ou desafiar os monstros ao meu redor, mas busco a saga de Friedkin na esperança de que isso seja possível. Mesmo as criaturas mais baixas irão se comunicar com seus colegas parasitas para combater o fim inevitável.
ATO IDIOTA 6
RADIOFÔNICO PAPO DE DOIDO (OU “CRAZY RADIO CHAT” - RADIO SHACK?)
Drika (repórter): “Estamos aqui com o Presidente Half Nozibitch, para falar de vários assuntos, mas vamos, primeiro, falar de economia. O que o senhor pode nos dizer das recentes medidas adotadas pelos parlamentares do Congresso?”
Presidente: “Boa tarde (ou pode ser boa noite, sei lá). Primeiro, você não disse do que eu sou presidente. Posso muito bem ser o presidente da Shell, como também da Schenker ou da Sharp (não me refiro ao movimento S.H.A.R.P., dos punks skinheads, que são contra o preconceito racial). Até já possuí um rádio-gravador dessa marca, comprado com o dinheiro da minha rescisão. A combinação das teclas “play/rec” não permitiam controlar o volume, que ficava “flat”, o que me pôs em maus lençóis (você já vai entender!) quando eu gravava tarde da noite, e a mamãe berrava comigo lá do quarto dela para eu desligá-lo! (“DESLIGA ESSA GERINGONÇA! ISSO AQUI PARECE UM MANICÔMIO!”). Em um momento eu tentava abafar com os lençóis (não falei?), e depois com o travesseiro, porque não queria perder os últimos segundos da gravação de uma música da Girlschool, “Emergency”, que começa com uma sirene policial). E mamãe dizia "nein nein nein". Ela era alemã, você pode perguntar. "Nein", eu só quis brincar com a pronúncia do telefone policial 999, da supracitada cantiga. Estou fazendo uma digressão.
Agradeço por você já querer abordar primeiro a política, assim nós damos um pontapé bem dado no traseiro desse assunto chato! Kick-it-in-the-ass! Quem nesse país miserável (quase 90% da população está abaixo da linha da pobreza) quer saber de taxas Selic, “commodities” (comodidades? Qual nada - é falso cognato!), “debêntures”, BTS (“behind-the scenes”?), Bitcoins, etc. Economizar como? Não temos como fazer isso, senão nosso dinheiro ficaria num cofrinho e não teríamos o que comer. Tem gente tão pobre por aí que, se você lhes der uma moeda, elas vão querer comer (bit/e coin). E "tem gente tão pobre que só tem dinheiro". Foi um grafite que vi nu muro da Lapa. Você conhece a Lapa toda? (aff! Foi mal aí!)
Aliás, você pronunciou meu nome errado: se eu for escrever como falou, vai ficar algo como “Half Nozibitch” - mas estou fugindo do assunto, fugindo não estou (mas 'Tempus fugit').
Qual era mesmo a pergunta?
Drika: “Debêntures… Sua Senhoria comentava.”
Prez RNB: Então, mas antes de retomar o fio da meada, você tem uma bela voz, e não tome isso como assédio, mas a pronúncia! Além de não ter anunciado de quê eu sou presidente, o que não importa (para ela), o que importa é a economia (Será? Não para mim.), e depois vamos falar de temas mais interessantes, cinema, futebol, música; afinal, quem liga o rádio para ouvir falar de economia? Somente empresários e cientistas políticos. O povo quer é entretenimento: tem gente que se diverte ouvindo programas de fofocas, outras querem saber se seu time vai escapar do rebaixamento, outras ligam para ouvir (pela enésima vez ‘Sacrifice’, de Elton John - eu gosto de ‘Philadelphia Freedom’ - olha, outra aliteraçãozinha aí, gente!)
Mas você queria saber do que mesmo, Drika? Outra coisa: ‘Sua Senhoria’ é quando você fala da minha pessoa para terceiros; o certo é ‘Vossa Senhoria’, porque está se dirigindo diretamente a mim. Respect. Porra. Biatch!
Drika (Sem entender lhufas): “Retomando a pauta, as novas medidas adotadas pelo Governo Federal.”
PRNB: Você não precisa falar do governo federal (minúsculas mesmo), como se fosse a última bolacha (ou biscoito? Eu pergunto porque, parece que em outros estados eles preferem o “bis”) do pacote. Não perca o fio da meada - digo para meus botões.
A economia? Ah, ela que vá catar coquinho! Vai ver se estou na esquina! E pára (modo coloquial mesmo, senão seria “pare”, e não quero demonstrar muito respeito por ela - a economia. Dissin’ da Economy, yo! Retomando: e pára (verbo imperativo com acento - “para” sem acento é preposição), e pára de me encher as medidas! Cáspite! Que eu quero mesmo é falar de assuntos leves, amenidades, como dizem ("neat stuff"), as artes, música, cinema, futebol, pintura… se bem que não “mando” muito bem nos quadros: aprecio os traços do H. R. Giger, gente como Dali, Picasso, o perturbado Joe Coleman (será que era o pai adotivo de Gary Coleman, aquele garoto adulto que esqueceu de crescer? “What you talkin’ about, Willis?”)
Olha, meu gosto por artistas do bico de pena, do pincel, do lápis e do aerógrafo (levei anos para descobrir que a tal da aerografia era aquele termo em inglês “airbrush”, só quando me aprofundei nos estudos da língua de Shakespeare. Hold my beer! Antes do Bardo, não se falava inglês nesse mundo?!
Enfim, eu dizia que aprecio as artes de gente do tipo Angeli, Fernando Gonsales, Galleppini, Ziraldo - ele ilustrou algumas capas de P. G. Wodehouse - Al Jaffee, o extravagante, Paul Peter Porges (aliteração em seu nome!), esse até ilustrou o importante The New Yorker e a revista Mad - essa mais importante ainda para mim, Jack Davis e Paul Coker (Jr), só doidivanas.
Ah, William Turner mandou avisar lá do além-túmulo que ele foi um gênio do pincel, só porque aperfeiçoou a arte de pintar as nuvens e nunca mais olhou pra trás (ou para baixo). O inglês pegava um barquinho, velejava (“Você não disse barquinho?” Pois é.), digo, navegava até o alto-mar e ficava horas e horas deitado de barriga pra cima, observando as nuvens passarem. Itália. Gênova. E Torino. E a Inglaterra, seu país natal? Manda lembranças, sir!
Drika: “Se Vossa Senhoria puder dar seu parecer sobre a economia, podemos abordar outros assuntos, porque o tempo passa”. (tic-toc.. tempus-fugit)
Prez Bitch: “Eu quero apenas salientar que a senhorita (será que ela é solteira?), quando começa a frase ‘Vossa senhoria’, deve manter a concordância pronominal, dizendo ‘vosso parecer’, por obséquio.
E antes que eu me esqueça: a economia que vá morder o pai dela na parte onde não bate sol! Quero deixar o ambiente menos carregado, porque me empolguei com o Turner (seria ele um ancestral - porque era do século dezenove: ele veio a óbito (OMG, que frase infeliz!) em mil oitocentos e alguma coisa. Seria ele ancestral de Martin, outro inglês, esse também das artes, mas das quatro cordas, ou do americano Ted, magnata da mídia moderna (aliteração - parte 3)?
“E o tempo passa”, já dizia outro falecido, esse da narração futebolística. E por falar em narração, quem mandava bem era Vincent Price, que eu pensava ser inglês, mas ele nasceu no Missouri, no início do século vinte. Foi por causa de seus filmes de horror pela Hammer (que virou sinônimo de horror no cinema - estou repetitivo? - e olha a aliteração, “part four”!).
Bom, nosso VP - não vice-presidente - nosso Price (“Our Price” era um adesivo que eu costumava ver nos LPs importados (lembra deles, os LPs?). Acho que era uma loja de discos nos EUA; mas também me lembrou um trecho de uma música do LPD, ou Legendary Pink Dots, para quem não tem preguiça de escrever, grupo inglês - na verdade, holandês: só o vocalista é inglês, que foi morar na Holanda (“Our price, our choice, we rarely make the right one…”). Edward K-Spel, o nome do sujeito. Lindo demais. O trecho da letra, quero dizer!
Nosso inestimável Price (Essa foi boa! Foi de improviso. Honest!) fez uma narração impagável do poema de Poe (aliteração V - haha) “The Raven” (Será que devo explicar para a nossa Drika que não é a banda dos irmãos Gallagher, de Newcastle, o rock de verdade?). Você, eu creio que já saca a história do gato preto (gata?)… Hold my beer de novo! Esse é outro assunto, também de Poe, um lindo conto de horror que foi lindamente musicado por Lou Reed (o transformer), e narrado pela doidivanas Diamanda Galás.
Trata-se, na verdade, da macilenta, maldosa,
deselegante e desgraçada ave agourenta,
que foi bater à porta do aposento do sujeito,
bem naquele momento,
que já era avançada a hora -
e ele havia perdido sua amada Lenora;
batia levemente à porta dos seus umbrais -
ele foi olhar e viu
“Somente trevas e nada mais.”
Pois bem, estou aqui sendo puxado pelo poema de Poe
(pareço gaguejar? Porque, repetindo e repisando: Puxado-Pelo-Poema-de-Poe)
“E quando eu pensava que estava fora, eles vêm e me puxam para dentro de novo!” (Al Pacino, em “O Poderoso Chefão”, Parte II ou III? Creio que é III, porque ele já está de cabelos grisalhos).
Estou aqui, sendo puxado por essa repórter, que quer arrancar de mim uma elucidação em economia.
Drika: “Passamos à política. Qual a sua opinião sobre o cenário político atual?”
Pres. RNB: “Escuta aqui, mocinha, aposto que seu nome se escreve com ‘K’.
Drika: “Acertou! Como sabia?”
Prez. RNB: “Deve ser numerologia, mas deixa pra lá. Se for para falar o que realmente penso da política desse país, e dos outros duzentos países do mundo, eu honestamente acho que não passaria no crivo de gente rebelde como o Marquês de Sade, ou seja lá de quem tenha escrito o “Kama Sutra”. E como disse um ator irlandês, até o diabo ficaria com medo. Ouso dizer que George Carlin ruborizaria. (Que a terra lhe tenha sido leve, George.)
Você sabia que os povos da antiguidade (sem trema mesmo - mas tem um técnico de futebol bem abaixo da média que faz questão de pronunciar essa palavra “questão” como se ela ainda carregasse aqueles dois pontinhos sobre o “u” (Uh! Que pedante!). Caí na digressão de novo.
Eu dizia que os povos de tempos idos acreditavam que todos os gatos pretos eram bruxas disfarçadas.
Superstição de tempos imemoriais. Somente isso e nada mais.
Poe falou, tá falado.
A parceria Poe/Price ainda teve ecos no cinema de animação, quando Tim (não o técnico de futebol - e esse não usava trëmä), o Burton de “Ed Wood”, “A Noiva Cadáver”, “Frankenweenie” etc.), fez uma homenagem singela (termo meu) ao ator do horror da Hammer, quando o convidou para narrar “Vincent”, em 1983, um ano significativo. “Dada”. Repito: 1983, ano em que comi churros pela primeira e última vez!
Outro grande narrador que era tão bom, que quase pôs fim ao mundo, foi Orson Welles. Lembra de “A Guerra dos Mundos”, de H.G. Wells? Claro que não! Isso foi em 1898 - e não 1983! - pois você nem tinha nascido. Pôs o planeta em pânico (alit. VI), o rechonchudo. A turma, acreditando que o planeta estava sendo invadido por extra-terrestres, ficou com uma repentina vontade de se mandar para não sei onde!
Catapultou sua carreira, que só rendeu mesmo no cinema, destacadamente em ‘Rosebud’, digo, ‘Cidadão Kane’. E quando ele pensava que estava fora (essa frase de novo!) das narrativas há muito, eis que surge o macho, musculoso metalista Manowar (aliteração sétima) e o põe a narrar a faixa "Defender". Deus - leia-se Odin - nos defenda!
Drika (ainda totalmente sem entender patavinas): “Só para encerrar, vossas últimas palavras, porque nosso tempo acabou.”
Pres. RNB: “A economia vai bem mal. Obrigado por nada!”
[Linha de tempo: 04:00 - 06:10]
ATO IDIOTA 5
"MUNDO MECÂNICO"
Ao girar das engrenagens
Mais um nível alcançado
Atente às mensagens
Do futuro, esqueça o passado
Tudo agora se encaixa
E parece fazer sentido
A dignidade em baixa
O elo foi partido
É um mundo mecânico
Resta a você apertar
O seu botão do pânico
Todos na linha de montagem
Atentos à sabotagem
É um mundo mecânico
Tuesday, April 14, 2026
ATO IDIOTA 4
"PETIÇÃO DE MISÉRIA"
Abandono agora a esperança
Cansado que estou do sonho
Na tempestade sem abonança
Na dança de um baile medonho
Envoltos em trajes grossos
Nossos entes queridos
Reduzidos a pele e ossos
Uns semi-mortos, outros feridos
Guerra não é pilhéria
Estamos em petição de miséria
Guerra não é pilhéria
Estamos em petição de miséria
Guerra não é pilhéria
Estamos em petição de miséria
Batalha que nunca é vencida
Mortalhas, expressão doída
Acabam na vala, no fosso
Moribundos, direto no poço
Possuem eterno arsenal
Para a Guerra Final
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26/3/2026 (13h35) 5a. feira
AN APPLE A DAY KEEPS THE DOCTOR AWAY
"UMA MAÇÃ POR DIA MANTÉM UMA VIDA SADIA"
ou
"UMA MAÇÃ É O BASTANTE PARA MANTER O MÉDICO DISTANTE"
ou
"COMA UMA MAÇÃ AGORA E MANDE SEU MÉDICO EMBORA"
MADELINE KAHN
Cá estou, a Deusa do desejo
Incendeio os homens com um beijo
Esse poder que me puxa
Manhã, dia e noite, são bebidas e dança
Uma rápida pegança, e depois uma ducha
Nos camarins eles sempre me cercam
Sem que me percam, me pedem sem pensar
Quem pode satisfazer quando se está de joelhos?
Não sou um coelho, preciso descansar
Estou cansada, cheia e cansada de amor
Já tive minha dose de amor
De cima a baixo dá um tremor
Cansada, cansada de ser admirada
Cansada de amor sem pegada
Fala sério - Estou cansada!
Já tive homens aos milhões
Novos e medalhões
Eles prometem mundos e fundos
Sempre pondo e tirando
Tirando e pondo - E acabam moribundos
Certo, meninas?
Estou cansada, cansada de bancar a pamonha
Isso não é uma vergonha?
Estou tão cansada - Maldição, estou exausta!
Já tive homens aos milhões
Novos e medalhões
Eles entoam a mesma cantiga
Começam com Byron e Shelley, a amiga
E saltam sobre sua barriga
E estouram sua bexiga - Ai!
Estou cansada, cansada de bancar a pamonha
Isso não é uma baita vergonha?
Fala sério, tudo abaixo da cintura está lascado!
====
(Canção "I'm Tired", que a atriz canta no filme Blazing Saddles [Banzé no Oeste], de Mel Brooks, 1974)
ATO IDIOTA 2
"NADA VAI MUDAR"
Eu já cansei de esperar
Por novos dias, bons ventos
Dificuldades que devo superar
Só aguardando esses momentos
Foi dito: "A revolução
Não será televisionada"*
Nem por isso
Vai mudar nada
Passeatas, quebra-quebras
Mesmo que você
Infringir as regras
Gerar conflitos
Já está escrito
Nada vai mudar
Patrão versus empregado
Igreja e Estado
Nada disso vai mudar
= = = =
(*) Música de Gil Scott-Heron, gravada em 1970
New Model Army: Guerra Tribal e a Civilização Ocidental
Justin Sullivan - entrevista 2009 [Fonte alienatedinvancouver.blogspot]
New Model Army: Guerra Tribal e a Civilização Ocidental - por Allan MacInnis
Então, o New Model Army tocará no The Rickshaw dia 8 de outubro. Essa banda não é apenas uma das minhas prediletas mais antigas - desde então, em 1985, eu os vi tocar "No Rest" no Soundproof, famoso programa de TV a cabo de Vancouver, que também me apresentou à tatuadora, poetisa, romancista, compositora, e parceira do NMA, a artista Joolz Denby - mas eu meio que sou responsável por esse show acontecer. Fiquei sabendo que a banda estava em turnê pela América do Norte; eles tinham um show agendado em Seattle - onde Femke e eu os vimos pouco mais de um ano atrás; tinham dois dias de folga DEPOIS de Seattle; mas vi que não tinham nada agendado para Vancouver. Fora um show como trio acústico no Cobalt em 2004 ou 2005, creio,a banda não havia tocado aqui há anos, e achei que poderia interessar ao Lowdowndirty, já que Dave sabe que sou bom para escrever sobre isso. Pronto! Agora a banda tem um desvio de rota de centenas de quilômetros - ao invés de encerrar em Seattle e ir direto para Denver, Colorado, onde tocam no dia 9... Eles preferem vir a Vancouver!
Ei, Justin DIZ que gosta de estar na estrada...Terei algumas matérias sobre New Model Army em breve no The Skinny, mas enquanto isso, eis minha grande entrevista com Justin Sullivan de alguns anos atrás. Partes disso foram publicadas no zine Razorcake e foram canibalizadas para as matérias de The Skinny, mas também falei com Justin sobre Today Is A Good Day, o novo e potente lançamento da banda, e ao menos uma próxima entrevista será baseada no novo material. Além de ler sobre a banda e conferir os muitos clipes deles no Youtube, você pode também baixar a impressionante faixa-título do álbum novo DE GRAÇA no dia 17 de agosto, se preferir...
Vocês sabiam que Justin Sullivan perdeu sua virgindade em Vancouver? É verdade! Justin e eu conversamos por celular no dia 8 de maio de 2008, enquanto ele dirigia de sua base em Bradford até Londres. A maior parte das músicas comentadas é do (absolutamente excelente) disco de estúdio de 2007, High. (Com a generosa ajuda de Justin Sullivan e Joolz Denby; observem também que o já falecido agente do NMA, Tommy Tee - a quem conheci em Seattle - foi essencial para esse show ter acontecido; RIP, Tommy).
Allan: Há uma abundância de imagens de gente dirigindo em suas músicas... Já que você está dirigindo, talvez a gente possa começar aqui.
Justin: Quando eu era garoto, minha mãe, se ela fosse ao mercado ou coisa do tipo - qualquer hora em que ela entrava em seu carro - eu costumava entrar lá com ela. Eu só queria estar em movimento o tempo todo, toda a minha vida. É meio que um tema recorrente, na verdade.
Allan: Algumas das suas letras sugerem que você dirige um tanto rápido...
Justin: Sim, às vezes.
Allan: Que tipo de carro você dirige?
Justin: Qualquer veículo que me leve de A a B. Não possuo a quantidade de dinheiro que dê para escolher o carro dos meus sonhos em uma loja, por isso dirijo o que estiver à mão.
Allan: Okay... Eu imagino que exista uma enorme comunidade de muçulmanos em Bradford, e ia perguntar a você sobre isso e sua música “One of the Chosen.” Suponho que essa música seja sobre o fundamentalismo islâmico - já houve alguma reação da comunidade muçulmana?
Justin: Por mais estranho que pareça, ela não foi escrita sobre a comunidade de muçulmanos, em absoluto. Era uma letra que escrevi muito tempo atrás, e na verdade foi escrita sobre um grupo de cristãos fundamentalistas. Mas é o seguinte, quando era jovem, eu costumava pular muito de religião em religião, todo tipo diferente na verdade, e eu me lembro da glória de simplesmente me entregar a uma grande verdade. E de estar certo: “Nós estamos certos, todo o resto de vocês está errado” - esse tipo de coisa. Mas é claro que isso se aplica muito bem a qualquer coisa fundamentalista. Eu na verdade tenho uma amiga que é paquistanesa muçulmana, e ela é muito religiosa, e lhe dei uma cópia do álbum, para ver o que ela ia achar. Ela exigiu uma espécie de explicação para “Into the Wind,” onde a gente fala “pegamos todos os livros sagrados” e os queimamos. Essa letra foi a que mais a perturbou.
Allan: Por que vocês estão queimando livros sagrados em “Into the Wind?”
Justin: Bem, eu acho que qualquer pessoa que olhe para o mundo moderno, às vezes pensa, “Por que não pegamos a Bíblia e o Torá e o Alcorão, e queimamos essas porras todas?” Por causa dos infindáveis argumentos e conflictos sobrer qual Deus falou para qual Profeta é tudo besteira, e as pessoas sabem que é besteira.
Allan: Mas você diz isso como alguém que vem de uma origem religiosa.
Justin: Sim, eu sou de origem religiosa. Quando tinha uns 19 anos, eu já havia passado por algumas religiões, e o que saquei bem cedo em minha vida foi que elas eram todas a mesma coisa. E o interesante é que existe uma espécie de elemento místico em todas elas, que é sobre a luz e a verdade, e não sobre as palavras. Portanto, no islã, é o elemento Sufi, que não se interessa pelas palavras ou os mandamentos de Maomé; e sim na mística ideia de Deus. Eu fui educado como um Quaker, que meio que é a mesma ideia, e o Cabbala é mais ou menos igual... São tudo a mesma coisa, no final das contas, assim que você passa pelo “Nós estamos certos, todo o resto de vocês está errado”. O lance sobre as religiões do livro, até certo ponto, as outras grandes religiões do mundo, é que são tudo cultos, e o motivo de elas sobreviverem é que têm uma hostilidade imbutida para com os estranhos. E no cristianismo, é o livro que foi escrito um pouco tempo depois, as Revelações, onde tem a “pegadinha no final” do cristianismo. O cristianismo é tudo sobre o amor e a verdade e a luz, a beleza, e blá-blá-blá, e depois tem a pegadinha no final: se você não se juntar a nós, vai ter encrenca. E é claro, isso também está escrito no Islã, porque Maomé tinha de proteger seu pequeno culto de ataques vindos de fora. O motivo de essas religiões sobreviverem é porque elas têm esse mecanismo de proteção contra ataques externos. Portanto, são todas igualmente aptas à hostilidade.
Allan: Mm-hmm.
Justin: Mas é por isso que sobreviveram, o grande mundo das religiões. Provavelmente os cultos mais iluminados desaparecem.... Esse lance sobre “One of the Chosen,” não é uma crítica.
Allan: Não, é extremamente simpatizante.
Justin: Sim, trata-se de como a gente se sente bem.
Allan: Ou seja, é algo que realmente me interessa sobre o New Model Army. Muitas bandas punks - não que vocês sejam tecnicamente uma banda punk - são na certa declaradamente hostis para com a religião; mas você sempre tsm uma visão mais complexa das coisas, falando de como o mundo é “agora que matamos Deus,” em “Drag It Down,” por exemplo.
Justin: Sou bastante ambivalents, sobre tudo. Quando se trata de letras, eu me reservo o direito de escrever sobre qualquer coisa. Nós começamos no início dos anos de 1980, e havia uns rumores sobre uma incendiária banda socialista vinda de Bradford: “O New Model Army - Nossa! De esquerda mesmo.” Depois, nosso primeiro lançamento foi “Vengeance” (uma música sobre cometer atos de vigilantes, se necessário, punir os culpados, desde pessoas que traficam drogas para adolescentes a nazistas fugitivos; o forte refrão é “I believe in vengeance/ I believe in justice/ I believe in getting the bastards”/Acredito em vingança/Acredito em justiça/Acredito em pegar os canalhas). Todo mundo ficou na maior confusão, porque ela é a música mais politicamente incorreta que alguém havia escrito! Eu me lembro, através dos anos, que fomos completamente deserdados pela esquerda por termos escrito aquela música. Bem depois, escrevemos a música “My People Right or Wrong”[Meu Povo, Certo ou Errado], que é muito simpática a uma espécie de nacionalismo cruel, de certo modo, se você for pensar bem. Mas eu me reservo o direito de escrever canções sobre sentimentos: não sobre o que é certo e errado, só sobre como as pessoas se sentem. É bem interessante: um jornalista certa vez me disse que todos seus companheiros jornalistas em Londres tinham um baita pavor de dizer que gostavam da gente, porque eles não sabiam o que íamos dizer na semana seguinte. Não creio que qualquer artista consiga receber um elogio maior do que esse, consegue mesmo?
Allan: [ri] Não! É um enorme elogio... Voltando à religião, porém... O neo-paganismo já foi explorado por você?
Justin: Sim. Por instinto, sou um pagão. Basicamente, para mim - eu recebi educação religiosa. A ideia de Deus ou o Outro faz totalmente parte da minha vida. Parece tão óbvio para mim que exista todo um outro nível de coisas acontecendo simultaneamente com o mundo material. Eu realmente não a questiono, e não tenho que fazer nada a respeito disso; para mim, Deus é a natureza e a natureza é Deus, e fazemos parte da natureza, portanto, fazemos parte de Deus. É tudo a mesma coisa. Se tivesse que dar um nome ao que eu acredito, seria provavelmente o Paganismo. Mas não sinto a necessidade de entrar em qualquer um desses grupos, você está entendendo?
Allan: E você sente a necessidade de alguma prática religiosa?
Justin: Eu vou a encontros de Quaker às vezes. Não sei se você já foi a esses encontros...?
Allan: Não.
Justin: Basicamente, você vai numa manhã de domingo, e senta-se em silêncio durante uma hora, e pronto. Se alguém tiver vontade de falar - sobre qualquer coisa - essa pessoa se levanta e fala sobre qualquer coisa. Aí outra pessoa pode falar, mas há o entendimento de que tem de haver pelo menos quatro ou cinco minutos de silêncio antes que alguém possa falar. E é isso, essa é a única regra. É uma coisa bem rara - um silêncio compartilhado entre as pessoas é uma coisa bastante rara no século 21. Eu gosto disso. Por isso eu vou às vezes, mas não com frequência, entende?
Allan: Que tipo de coisas são ditas entre os silêncios?
Justin: Bom, muitas vezes é sobre o que está rolando pelo mundo. Os Quakers têm um histórico de envolvimento pacifista com o mundo. Se você alguma vez vir uma marcha anti-guerra, haverá umas velhinhas lá na frente, e haverá Quakers.
Allan: Quando garoto, você ia - existe uma igreja de Quakers?
Justin: Encontros, encontros de Quakers. Eu ia lá quando moleque, às vezes, sim. Mas todo o lance do quakerismo é que, especificamente, você não deve fazer proselitismo - Estou provavelmente quebrando as regras agora! Nem se deve favorecer Quakers em detrimento aos não-Quakers, se está me entendendo. É basicamente uma espécie de culto universal, se você preferir.
Allan: Como é que as pessoas se envolvem, se não pode haver proselitismo?
Justin: Elas ouvem sobre isso, vão lá, e pensam, “Sim, isso faz sentido.” Suas raízes são as mesmas da Guerra Civil Inglesa. (Nota: o New Model Army tirou seu nome do exércio revolucionário de Oliver Cromwell naquele conflito). Basicamente: o Rei era o chefe da ingreja, e eles mataram o Rei. Você tem que lembrar que no século 17, religião e política eram muito coesas, muito igual ao que está acontecendo no mundo islâmico nesse momento. As duas coisas andavam muito lado a lado. O cenário era dominado pelos Presbiterianos, que diziam, “Bem, aí está. A Palavra de Deus está na Bíblia.
Portanto você faz o que está na Bíblia, sem questionamentos.” E depois você tem uns pregadores que interpretam a palavra de Deus para você. E então surgiu um cara chamado George Fox, que disse, “Ah, não, existe uma parte de Deus em cada pessoa, e você responde a parte de Deus em si mesmo, e tem de ficar quieto e escutar a parte de Deus que está em si. E é a sua consciência, e se você ficar quieto e ouvir sua consciência, ela irá guiar você pelo caminho certo no mundo. Quando você encontra outras pessoas, deve conhecer a parte de Deus nelas, e não o que elas parecem estar falando. É realmente um lance meio hippie, sinceramente. E obviamente elas foram muito perseguidas nos séculos 17 e 18, e assim por diante.
Allan: Eu não sei muito sobre isso, para ser sincero.
Justin: Isso não é tão importante de saber. Sou muito interessado nisso, e é parte da minha vida, sem ser uma parte dominante. Mas ninguém escreveu músicas não-Quaker como “Vengeance” ou "The Hunt”, ou “Here Comes the War.” Como compositor, eu me reservo o direito de escrever sobre qualquer coisa que considere interessante.
Allan: Certo! ...mas pelo que entendo, em vários pontos, vocês retiraram “Vengeance” de seu repertório, e a banda não a toca desde o 9/11. Ou isso mudou?
Justin: Ahhh - nós a tocamos em uma ocasião em particular, na verdade. Eu estava fazendo um show acústico com Michael e Dean da banda, e a gente estava em uma cidadezinha, e bem em frente ao nosso show havia uma loja descaradamente vendendo objetos nazistas, skinheads nazitas. Então a gente tocou "Vengeance", e na verdade saímos e causamos enormes danos físicos naquela loja depois do show. Pra você ver...
Allan: Uau!
Justin: É melhor não escrever isso em seu jornal... Ah, pode publicar se você quiser, eu não me importo. Nós tocamos essa música naquela noite. Creio que essa música fala realmente de como a justiça tem de ser feita, mas dito isso, o mundo está cheio de pessoas gritando por vingança no momento que, geralmente falando, eu não sinto a necessidade de acrescentar minha voz.
Allan: Certo.
Justin: Dito isso, eu não disse que jamais a tocaremos de novo. Creio que, como artista, você sempre tem de ser fiel a si mesmo, e há momentos em que você realmente quer fazer alguma coisa. Pode não combinar com sua filosofia política, mas é emocionalmente verdade. Acho que a questão da música é que não se trata de filosofia, e sim de emoções.
Allan: Certo, embora você possua letras muito inteligentes -
Justin: Mas eu faço muito esforço para não escrever sobre mim mesmo. Não é tudo minhas opiniõess, você está me entendendo? A personagem em “One of the Chosen” não é eu. Bem, poderia ser eu - mas é qualquer pessoa, naquela situação em particular.
Allan: Você disse que escreveu canções baseado em entrevistas com outras pessoas, captando os sentimentos de outras pessoas em suas músicas. Será que pode dar um exemplo de algumas...?
Justin: Ah, centenas - provavelmente a maioria delas. Vamos começar com o recente material. A música chamada “Breathing,” em 'High', fala sobre - originalmente era um segredo, mas se tornou bem conhecido - alguém que era muito próxima da banda, que estava no vagão vizinho de um trem que foi bombardeado em Londres dois anos atrás. “Breathing” foi bem palavra por palavra do que ela me contou quando lhe perguntei por telefone...
Allan: Como tem sido essa recepção?
Justin: Por ela, ok! Por todo o resto, ok. Muitas pessoas não fazem ideia do que se trata. Em entrevistas, ocasionalmente, contei às pessoas. Entre as pessoas próximas à banda, todo mundo sabe. Como já falei, eu me reservo o direito de escrever sobre o que quiser; e todo mundo diz o que quiser, pensa o que quiser. Às vezes você solta uma música no domínio público e as pessoas a interpretam completamente diferente do que foi a sua intenção, mas eu não me importo tampouco.
Allan: Existe um exemplo disso?
Justin: “Ghost of Your Father,” essa é interessante.
Allan: Eu na verdade não possuo nenhuma coletânea de lados B, por isso não conheço essa música...
Justin: Bem, ela fala sobre o relacionamento de outra pessoa com seu pai como eu a entendo. E todo mundo a interpretou à sua maneira, de acordo com seu relacionamento com seu próprio pai. O que sempre é interessante.
Allan: Deixe-me perguntar a você sobre o envolvimento político. “One of the Chosen” poderia também se aplicar a uma célula terrorista ou algo assim.
Justin: Sim. “The Attack” também. Repetindo, isso é contado lá de dentro, de como dá a sensação de empolgamento.
Allan: E você alguma vez já...
Justin: Se eu já cometi um ato terrorista?
Allan (ri): Ah, não.
Justin: Eu tive de responder isso na imigração americana. A resposta é não.
Allan: Ok, mas - você já esteve realmente envolvido politicamente? Na música “You Weren’t There,” do disco Eight, você fala sobre “caminhando abraçados ao sol...”
Justin: Sim, eu faço isso com certa frequência. Até gosto de fazer esse tipo de coisa.
Allan: Ir a passeatas?
Justin: Sim, eu adoro fazer isso. Acho melhor do que tacar tijolos no televisor em sua sala de estar. Você sai e se dá conta de que não está sozinho em sua fúria pelo governo, ou seja lá o que for. O mais famoso exemplo são as passeatas anti-guerra em Londres pouco antes da guerra no Iraque. Mais de um milhão de pessoas participaram daquilo. Os organizadores dizem que foi perto de dois milhões, a polícia diz menos de um milhão, mas certamente mais de um milhão, que é de longe a maior manifestação na história da Grã-Bretanha. E com certeza eu estava nessa. Foi bom saber que havia um milhão de pessoas que sentiam o mesmo que eu. É uma coisa que te dá mais força.
Allan: Sim.
Justin: Não que isso mude qualquer coisa, exceto, ao final das contas, que dá a você um sentimento de força. Você não está isolado. Está entre outras pessoas que se sentem do mesmo modo.
Allan: Eu acho que esse é o atrativo. Mas tudo bem, você nunca cometeu um ato terrorista, mas - em termos de música, como você se sente sobre os grupos que defendem uma espécie de ativismo agressivo, digamos - a banda Crass, por exemplo?
Justin: Já estive envolvido em ativismo agressivo, sim. Em várias situaçãos. Todavia, eu meio que nunca curti o lance do Crass. Existem duas ou três coisas com as quais não concordo. Esse lance todo da anarquia: houve vários períodos de anarquia na história, e eles invariavelmente foram seguidos por ditaduras militares, sem exceção. A anarquia parece linda quando você é jovem, másculo e forte, mas quando é uma mulher grávida ou idosa ou vulnerável em várias maneiras, não é bem uma boa ideia. Você não se sente tão seguro, está me entendendo? É fácil de entender, pelo que me consta. Os anarquistas têm seu lindo sonho, e é mesmo um lindo sonho, mas não funcionou, porque as pessoas são pessoas... Então, essa é uma ressalva. Minha próxima ressalva é, uma das coisas sobre o Crass é que isso era totalmente confrontativo. Como muito da arte moderna: deliberadamente confrontativa e feia. Seu argumento seria de que o mundo é feio e estão expondo o mundo como ele é, sem o filtro da televisão ou alguma coisa para fazê-lo aparecer como outra coisa contrária ao que ele é... Mas eu discordo de que o mundo seja feio e que as pessoas sejam feias e assim por diante. Entendo o ponto de vista completamente, mas sou basicamente, por natureza, um romântico. Eu acho que se o mundo é feio, por que não pôr alguma coisa bonita dentro dele? E acho que o New Model Army anda por essa estranha linha: ela é muito direta, e um tanto revoltada, e um outro tanto emocionalmente rígida, às vezes - passional. Mas nunca é feia. Existem canções como “One of the Chosen,” que não é particularmente uma bela canção, concordo, mas se você pegar “High,” ou até “Into the Wind” - ela é um tanto amarga, mas de certo modo, é musicalmente linda, musicalmente romântica.
Allan: Ok.
Justin: A terceira coisa sobre o Crass e todo esse lance político-punk, é que eles acreditam em sua filosofia, e a música fica como pano de fundo, para transmitir a filosofia. Agora, para mim, se você fizer isso, você tem um álbum em que o expôe, e pronto. Por que prosseguir? Fica meio sem sentido, de certo modo. Não acredito que a música devesse ser usada como pano de fundo para coisa alguma - acho que o New Model Army existe por razões musicais, não políticas. Estou interessado em escrever sobre o mundo, mas nos juntamos em primeiro lugar pela alegria de tocar música, e ainda assim, quando entramos no palco, é a alegria de tocar música, não a mensagem, esse na verdade é o lance para nós. O lado abstrato da música, não a filosofia. E também, a filosofia, como estabelecemos, é muito desorganizada. Temos canções que se contradizem completamente: “I believe in vengeance.” “I don't believe in vengeance, I believe in forgiveness.[Eu acredito em vingança. Não acredito em vingança, acredito em perdão". A gente pode passar por ambos os pontos de vista no mesmo repertório de modo bem feliz.
Allan: Uma coisa que teve destaque no show de Seattle é que eu creio que não vi alguém que estivesse mais engajado de modo tão passional. Você estava com um incrível brilho em seus olhos, de engajamento com a linguagem, com a música. Como você se sente quando está tocando?
Justin: Bom... Eu tenho dias bons e dias ruins. Lembro-me de ter curtido aquele show. Como eu me sinto? É estranho, sei lá.
Allan: Você poderia ser um fanático pregador. Não é, mas...
Justin: Ah não, não - Estou bem ciente, e poderia ter transformado o New Model Army em uma espécie de culto fanático. Eu poderia, mas não quero fazer isso. Música não é para isso. Fico muito envolvido com a música. Se pudermos falar sobre música por um minuto, minha música favorita e meu fundo musical é, mais do que qualquer outra coisa, o Northern Soul. Eu costumava ir ao Wigan Casino e todos aqueles lugares nos anos de 1970 -
Allan: Perdão, a conexão não está muito boa. Você costumava ir onde?
Justin: Um clube famoso que era rei da cena no norte da Grã-Bretanha chamado Northern Soul. Que tem tudo que é disco obscuro que veio de Chicago e Detroit, que eram em sua maioria cópias da Motown. Música de ritmo soul dançante cadenciado. É uma cena que ainda existe, e ela envolvia clubes que costumavam abrir à meia-noite. A galera dançava até às 8 da manhã. Elas não bebiam; consumiam, basicamente, bolinhas e outros estimulantes, e dançavam a noite toda. E havia muita habilidade nessas danças. Essa era a diferença entre isso e as raves, que surgiram uns dez anos mais tarde: tudo girava em torno de ser bom dançarino. E era tudo baseado na música soul americana dos anos de 1960s.
Essa foi minha primeira paixão, a música soul americana dessa época, que é tudo em torno de seções rítmicaa. E isso é uma das coisas sobre o New Model Army. As pessoas chamam de punk e de rock e folk, mas o que não percebem é que todos os nossos álbuns possuem essa coisa em comum, que o baixo e a bateria estão realmente aparecendo. É disso que eu gosto. Nós tivemos três diferentes bateristas e três diferentes baixistas. Todos eles têm sido fenomenais. E quando estou no palco, parece um pouco, para mim, como dirigir um caminhão morro abaixo. Toda a força está vindo por trás de mim. Tudo que faço é controlar o volante. Eu fui a um show em 1979, de um grupo chamado The Ruts - não sei se você lembra deles...
Allan: Opa. Babylon’s Burning.
Justin: Sim. Babylon’s Burning sendo seu disco mais famoso. E eles teriam se tornado uma enorme banda, mas o vocalista morreu de heroína em 1980. Mas eu fui a um show em 1979 - havia 200 pessoas em um pequeno pub em Bradford. Eu fui ao show, e realmente não sabia o que eu queria fazer da minha vida. E em um hora e meia que eles tocaram, foi tudo maravilhoso e terrível e assustador e musical e empolgante estar vivo, e eu simplesmente me senti completamente entusiasmado pela coisa toda. Eu me lembro de sair do show pensando, “É isso que eu quero fazer. Se algum dia eu pudesse fazer as pessoas se sentirem tão tensas e maravilhadas como me senti essa noite, morreria feliz. E aquele tipo de show permanece sendo meu exemplo. Toda vez que subo ao palco, eu quero que as pessoas sintam como me senti naquela noite.” Isso é a essência.
Allan: Deixe eu lhe perguntar uma coisa não-musical, então. Em termos de intensos engajamentos com experiência - sei que quando esteve em Vancouver, você falou sobre ir observar as baleias; falamos sobre dirigir; você fez sua viagem num navio cargueiro pelo Atlântico (a inspiração para o disco solo de Justin, Navigating by the Stars), eu acho que você escalou montanhas, baseado no que disse no palco em Seattle...
Justin: Eu certa vez entrei escondido no Paquistão com um caminhão cheio de muamba. Aquilo foi bastante interessante. E morei em Belfast por um ano, no auge dos Conflitos [do IRA]. Já fiz várias coisas, sabe? Bate aquele tédio se eu ficar trancado em casa por mais de duas semanas.
Allan: Como é que foi o lance no Paquistão?
Justin: Isso foi há muito tempo. Era um grupo mafioso no Paquistão com quem eu me envolvi. Isso foi na década de 1970. No retorno, eu não fiquei interessado em fazer de novo - eles nunca me chamaram. Mas eu estava basicamente dirigindo um caminhão de Bradford até o Paquistão com vídeos e botas e sapatos e peças de motor e muitas coisas, em um comboio com outros caminhões - caminhoneiros paquistaneses, para o que eles agora chamam pátria tribal. É uma área do Paquistão que está causando pânico nos Estados Unidos. Na verdade, é uma área do Paquistão que é afegã. As pessoas de lá são Pashtuns. São completamente tribais. Elas nunca foram controlada por ninguém. Foi com elas que eu me envolvi, e havia três ou quatro deles com quem realmente me dei bem, mas o líder do grupo, eu me dei muito mal, e mais tarde descobri que ele era um assassino, e coisas do tipo. Um assassino-empresário, e não um assassino de religião. Por isso me desliguei daquilo.
Allan: Eu me pergunto como isso vai ficar em uma revista americana...
Justin: Elas são pessoas tribais. Como tudo já foi uma vez. Sua lealdade é para com a tribo. E se os tempos ficarem realmente difíceis, o que pode acontecer no futuro, vamos descobrir que esse verniz de civilização liberal - que tem suas raízes, realmente, na revolução inglesa, mais do que em qualquer outro lugar - é mais fino do que pensamos. As pessoas para quem a vida é difícil, que é a maioria das pessoas no mundo, revertem às lealdades tribais. Porque se a vida for difícil mesmo, com quem você vai contar? Sua família é a mais confiável das pessoas.
Allan: E isso entra em suas músicas, com frequência. Você falou sobre família...
Justin: Sou fascinado por esse atrito de lealdades, porque venho dessa criação liberal individualista onde você meio que ouve sua consciência e age de acordo. Mas 30 anos atrás, quando eu conheci Joolz, seus pais de ambos os lados eram militares, e quando a conheci, ela estava casada com um membro dos Hell’s Angels. Seus instintos eram todos meio que ligados à gangues-ou-tribos. E durante todo nosso relacionamento, tivemos aquele tipo de confronto, entre sua primeira lealdade sendo tribal, ou sendo arrogante, podemos dizer. Isso me interessa. Eu não acho que qualquer uma das duas esteja absolutamente certa ou errada, entende o que eu digo? Acho que tem de haver um senso de lealdade entre pequenos grupos de pessoas. Não creio que o absoluto tribalismo ou o absoluto individualismo esteja certo - ambos estão certos, e ambos errados. No tribalismo, na melhor das hipóteses, você tem um sistema de apoio para todas as pessoas. Na pior, você tem pequenas desavenças tribais e guerrilhas que acabam em anos de carnificina. E no individualismo, você tem uma espécie de liberdade que, especialmente na América do Norte, valores particulares, mas da mesma maneira, você passa por cima das pessoas que dormem nas ruas, porque não é sua responsabilidade.
Allan: Qual é a situação em Bradford entre as comunidades de muçulmanos e não-muçulmanos? Existe violência, tensão, fúria...?
Justin: Ok, serei sincero, existe um nível de tensão. Mas se você fala sobre a “comunidade de muçulmanos” - qualquer pessoa que mora em Bradford, realmente, sabe que não existe uma “comunidade de muçulmanos”. Existem cerca de setecentas diferentes comunidades de muçulmanos. O mundo islâmico no momento - é um pouco parecido com a Europa do século 17, ou algo assim, onde existe virtualmente uma divisão entre sunnis e xiitas. E depois tem uma divisão entre as pessoas que acreditam que o Alcorão montou um sistema político, e as pessoas que acreditam que essa religião trata de espiritualidade e não de política. E depois há os muçulmanos da classe média e os da classe operária, e muçulmanos rurais e muçulmanos das metrópoles, e todos eles no mundo são bastante diferentes. Se você olhar as famílias de muçulmanos na minha rua, as atitudes delas com o que é o haraam - proibido - e o que não é, é bastante diferente. Existem garotas muçulmanas em Bradford que acham que deveriam usar o traje todo do hijab, o niqab, tudo. Elas não são obrigadas a usá-lo, elas escolheram fazê-lo, como uma afirmação de sua estética. E na verdade, é até divertido, eu imagino. Se você for uma garota adolescente, que usa niqab, é absolutamente fantástico - é algo como usar óculos escuros. Você está protegida do olhar do mundo - pode ficar ali sentada e bancar a arrogante e descolada. Fantástico!
E todo mundo olha para você e faz muxoxo, mas o que poderia ser melhor se você é uma adolescente? Do mesmo modo há bastantes garotas muçulmanas que não usam hijab e se parecem com rainhas de Bollywood de salto alto, e ficam absolutamente demais. Elas usam o cabelo solto... Provavelmente não usariam saias curtas, elas cobrem as pernas, mas contanto que façam isso, elas são bastante livres para fazer o que quiserem. Então cada estágio é representado. A ideia de que existe só um modo de vida muçulmano é tão ridícula quanto dizer que existe só um modo cristão de vida, entende? O ocidente é muito paranóico e completamente estúpido sobre o Islã, realmente.
Allan: Ah.
Justin: Existe um pequeno número de fundamentalistas malucos, é verdade. Se eles são uma ameaça? Bem, sim, haverá algumas bombas explodindo nos próximos 20-30 anos. Haverá alguma lei Sharia na Grã-Bretanha? Não, não haverá. Está me entendendo? Todo esse pânico sobre isso é ridículo.
Allan: É a coisa tribal se auto-afirmando, que você estava falando antes...
Justin: Sim.
Allan: Se pudéssemos ir lá, na época - a turnê cancelada (no fim de 2007): aquilo teve algo a ver com política?
Justin: Eu não faço ideia. Nós nunca saberemos. Eles realmente não têm de nos contar muita coisa. Disseram que foi devido a uma tecnicalidade, mas nunca saberemos se é verdade ou não. Seria burrice nossa especular publicamente.
Allan: Eu havia lido que a banda foi proibida de tocar nos EUA em 1985-86. Isso é verdade?
Justin: Mas de novo, a gente nunca saberá o porquê. Eu não acredito quem alguém do Departamento Americano tire os discos e escute eles. Talvez seja o nome da banda, quem sabe? Talvez fosse a tecnicalidade - alguém não pôs os pingos nos "is" do formulário. Eles não são obrigados a lhe contar muita coisa.
Allan: Isso é muito ruim. Eu soube que vocês perderam muito dinheiro por causa daquilo.
Justin: Sim.
Allan: Se eu puder perguntar sobre Joolz, imagino que você mantenha sua vida privada, mas vocês foram um casal por um longo tempo, certo?
Justin: Sim, mais ou menos.
Allan: Deixe-me perguntar sobre tatuagens, então - que é uma coisa que vocês têm em comum...
Justin: Bom... Eu tenho tatuagens que realmente amo, mas não sou coberto de tatuagens. Joolz é. Ela é também uma tatuadora hoje em dia. Acho que há duas ou três razões para isso. Ela me disse certa vez que quando era garotinha, leu um livro de aventuras que nunca conseguiu achar de novo, sobre uma garotinha que naufragou nos Mares do Sul, e fora levada a uma ilha, foi tatuada pelos nativos e ganhou status de uma verdadeira nativa da ilha tribal, de uma maneira muito romântica, à lá Kipling. Em segundo lugar, ela cresceu em Portsmouth, que é uma cidade naval, então a fronte de Portsmouth era repleta de ateliês, onde todos os marinheiros eram tatuados. Essas duas coisas dominaram sua imaginação de jovem garota, e ela ficou fascinada com isso em uma idade muito tenra; mas também acho que, como artista, ela ficou interessada nas possibilidades. Ela teve a primeira ou segunda braçadeira Celta já feita. Por volta de 1979, ela conheceu um tatuador galês chamado Mickey Sharpz, que nessa altura já se aposentou, mas foi tatuador muito influente no renascimento das tatuagens que aconteceu nos últimos 25 anos. Ela teve a primeira tatuagem Celta, e por aí vai.Ela é meio que uma pioneira nesse mundo.
Allan: Eu me lembro de vê-la na TV daqui em meados dos anos 1980, num programa de canal a cabo chamado Soundproof. Ela leu alguns de seus poemas e mostrou uma rosa negra em seu tornozelo - havia um famoso tatuador de Vancouver chamado Dutchman, por quem queria ser tatuada, porém ela me disse que nunca conseguiu...
Justin: Não creio que ela teve alguma em Vancouver. Eu não me lembro. Ela certamente teve muitas tatuagens tribais feitas por samoanos famosos quando esteve na Nova Zelândia.
Allan: Ah, é mesmo?
Justin: Ela coleciona muitas tatuagens de diferentes artistas.
Allan: Ela já fez alguma das suas tatuagens?
Justin: Sim, ela fez um peixe no meu pé, uma tatuagem manual, que, devo lhe confessar, foi muito dolorosa, mas eu a adoro de verdade. Eu amo toda a arte de Joolz, que - não muito diferente da nossa música - é muito orgânica. Ela nunca é graficamente perfeita, entende o que digo? Ela não tem essa coisa artística sobre grafismo; ela curte uma espécie de arte de “iconografia tribalista”. E outra coisa, ela está sempre - como a banda - procurando fazer alguma coisa nova. Quando ela começou a fazer arte Celta em meados dos anos 80, era tudo novidade, entende? Houve um grande revival Celta no final do século 19, na era vitoriana, mas desde então não estava muito na moda. Tinha tudo a ver com ela que se tornou muito na moda nos anos de 1980 - a capa de Thunder and Consolation e dali em diante. Quando essa onda arrebentou, e ficou realmente grande nos anos ‘90, ela partiu para fazer coisas bem diferentes. Como tatuadora, uma artista, entende... Quando alguma coisa que ela fez se torna meio que popular, ela já está fazendo alguma outra coisa. “Já fiz isso, vamos em frente.”
Allan: Certo. As músicas que você escreveu sobre relacionamentos - coisas como “Poison Street,” ou a música de Joolz “Love Is,” do disco Hex... Creio que algumas delas sejam sobre seu relacionamento com ela.
Justin: Ahhh - algumas são, outras não.
Allan: Elas parecem muito, um, tempestuosas.
Justin: (risos).
Allan: Basedo em canções como essas, parece que pode ter sido um relacionamento tempestuoso, sei lá.
Justin: Todos relacionamentos são tempestuosos! Não são? Quer dizer, um pouquinho. Devo dizer que não somos tão tempestuosos ultimamente, mas... temos um relacionamento complicado, que eu particularmente não quero comentar. Acho que o importante é que começamos uma conversa sobre ideias e arte, Deus e a beleza e o mundo e tudo mais em 1979, e ainda estamos envolvidos na conversa. Esse é o segredo de um longo relacionamento - você nunca esgota os assuntos.
Allan: Ajuda vocês serem inteligentes, criativos como pessoas, também, imagino.
Justin: E também ajuda a gente não fazer as mesmas coisas. Então ela faz tatuagens e desenhos e ilustrações, e escreve romances e poesia, e eu escrevo canções. Se estivéssemos fazendo as mesmas coisas, acho que seria mais difícil, porque depois estaríamos em competição direta.
Allan: Vocês às vezes fizeram a mesma coisa - os álbuns do Red Sky Coven, em que trabalharam juntos, por exemplo.
Justin: Sim, mas ela está fazendo o que ela faz, que é ler sua poesia e contar estórias, e eu canto canções. Isso não é bem uma competição.
Allan: Eu nunca vi esses álbuns em lugar algum na América do Norte.
Justin: Eles não foram lançados. Nós os vendemos nos shows, todavia não fazemos um show [como Red Sky Coven] há uns cinco anos. E os vendemos pela internet. É meio que um culto dentro de outro. Mas é baseado no fato de que eu e Joolz e Rev e Brett somos ótimos amigos há 25 anos.
Allan: Como é a visibilidade de vocês fora da América do Norte esses dias? Em Seattle, parece que vocês não atraíram um público muito grande. Era um público devoto, empolgado, mas bastante pequeno... Eu soube que vocês tocam para enormes plateias em outras partes do mundo...
Justin: Não! Não, não, não. Somos uma banda cult em todos os lugares. Depende do que você chama de grande - o que é grande para você?
Allan: Bem, eu não não sei. Em Seattle pareceu que havia umas 400 pessoas presentes.
Justin: Sim, ok. Se tocarmos em Manchester, haverá umas 1000. Se tocarmos em Londres, haverá umas 1500, 1600, 2000. Se tocarmos em Hamburgo, haverá umas 1500. Quando tocamos em Colônia toda época de Natal, em geral há umas 3000. Portanto, não somos uma banda grande em lugar algum. Somos uma banda cult em todo canto.
Allan: Vocês já tomaramm a decisão de excluir músicas, quando estão indo para um país em particular, por causa da história ou da situação política naquele país?
Justin: Muito raramente. Eu me lembro, alguns anos atrás, tocamos em um festival na Holanda, que é um festival anual, para comemorar a liberação da Holanda do jugo dos nazistas. Tivemos que fazer um show curto e achamos que “Here Comes the War” era provavelmente a música errada para a ocasião. Por isso não a tocamos. Mas, genericamente falando, não fazemos isso.
Allan: Deixe eu lhe perguntar sobre o álbum High, então. Eu nunca enxerguei suas letras como sendo muito a favor do progresso -
Justin: Sim, eu passo essa impressão de ser meio Luddita. Eu, na verdade - estou aqui, acelerando pela auto-estrada, falando com você num celular. Portantoo, não realmente, não...
Allan: Mas nesse álbum em particular, em “Rivers,” em “Into the Wind,” existe muito de espanto com o progresso humano. Existe um horror, mas também espanto. Parece um tanto uma mudança de perspectiva. Mas eu não sei se estou interpretando corretamente...
Justin: Talvez... Sim, acho que as pessoas são bastante incríveis. Nossas capacidades são muito incríveis - somos macacos inteligentes.
Allan: Então, muitas das músicas parecem se encaixar tematicamente - compartilham de uma tentativa de se sobressair diante da situação atual e olhar ao redor...
Justin: Muito mais desengajadas. Acho que High é bem interessante em que metade das músicas são muito engajadas com o aqui e agora, entende - “All Consuming Fire,” ou obviamentea que fala sobre o Iraque, “Bloodsports” - embora na verdade fora escrita mais sobre Bradford do que o Iraque. Elas são muito engajadas. E depois há as canções sobre desengajamento, como “High.” E sim, ela tem muito de mim. Às vezes sou muito engajado, e às vezes muito desengajado. Às vezes eu vivo na sintonia das pessoas, e às vezes eu vivo na sintonia da natureza, da qual as pessoas são obviamente um pequeno estilhaço. Nesse caso, tudo isso é um piscar de olhos. E há uma parte de mim que tem o senso de que eu nasci na terra três milhões e meio de anos atrás, ou sei lá - quando a vida começou - e eu morrerei, e você irá morrer, quando a vida na terra acabar, o que está muito, muito longe de acontecer. A vida na terra irá sobreviver muito bem aos seres humanos... E parte de mim vê as coisas com aquele tipo de sintonia.
Allan: Houve uma consciente tentativa de desenvolver esse tema no álbum?
Justin: Não. À medida em que envelheço, sou puxado para ambos os lados simultaneamente. Eu acho que é uma coisa a bastante comum: as pessoas que são muito politicamente engajadas quando jovens, existe uma jornada bastante comum para outros lugares, entende? Quem foi mais famoso, eu suponho, Malcolm X. Eu não vou dizer que sou Malcolm X, mas uma das minhas estórias favoritas - certamente eu amo demais o filme - é que a jornada, de alguém que começa bastante materialista, e depois descobre a política radical, e depois eventualmente descobre alguma coisa bem mais profunda e duradoura...
Allan: Sim.
Justin: E é morta por isso! (risos). No caso dele... mas acho que isso é muito comum. Existe um cara chamado John Liburne, que é o fundador do movimento dos Levellers na Guerra Civil inglesa.
Allan: Freeborn John.
Justin: Sim, Freeborn John. Esse é um exemplo clássico de um revolucionário que na verdade acabou virando um Quaker, quase renunciando à revolução como um fracasso e voltando-se para Deus. É uma coisa bastante comum, eu lamento.
Allan: Mas não necessariamente uma coisa ruim...
Justin: Acho que está na natureza de se envelhecer, essa coisa sobre aceitação. Que é uma grande parte da religião, na verdade. Existe aquela famosa oração, não é? - Eu não sei sua origem: “Por favor, Deus, ajude-me a mudar as coisas que eu posso mudar, a aceitar as coisas que não consigo mudar, e me dê a sabedoria para distinguir a diferença.” À medida em que vai envelhecendo, você percebe que são as relações com as pessoas ao seu redor e daí em diante, que você tenha um meio de controlar - que o mundo inteiro, você não tem controle. E acho que isso vem junto com essa coisa que acontece com as pessoas em algum momento da sua vida. Você sabe como, quando é jovem, você diz, “E não ligo para o que pensam de mim”, mas na verdade você se importa muito com o que as pessoas pensam de você. Quer que as pessoas achem você esperto e brilhante, todas essas coisas. Chega um momento na sua vida em que você pensa, com exceção das pessoas que você ama muito, na verdade, você está cagando e andando para o que alguém pensa sobre você. Dei-me conta disso quando eu tinha uns 40 anos. E esse peso meio que cai das suas costas. Eu me lembro de acordar certa manhã pensando, “Na verdade, estou cagando e andando para o que alguém pensa, à parte as pessoas próximas a mim. Eu não tô nem aí.”
Allan: Li que você estava falando sobre o romantismo de estar na estrada - talvez podíamos falar um pouco sobre isso...
Justin: Quando eu era garoto, saí de casa, e arrumei um emprego em Londres, economizei um pouco de dinheiro, e peguei um avião para Nova Iorque e saí pegando carona. E passei três meses e meio pegando caronas pela América do Norte. Eu sempre tive uma paixão por essa coisa, a estrada.
Allan: Você já pensou em aposentar a banda a qualquer momento?
Justin: Em termos de escrever canções e rodar pelo mundo cantando-as para as pessoas, eu não consigo pensar em qualquer outra coisa que quisesse fazer até morrer, sabe? Parece ser alguma coisa que eu amo, basicamente. Todos esses músicos que reclamam dos quartos de hotel e aeroportos e coisa e tal - eu não me importo com nada disso, eu gosto de tudo. Gosto desse meio de vida... A coisa muda de figura se você tem filhos. Eu não tenho filhos. Michael, que é meu principal parceiro na banda, desde que Robert saiu em 1998 - como eu gosto de trabalhar com bateristas - Michael tem dois filhos jovens. E pra ser sincero, quando saímos em turnê por três meses, isso não é uma coisa que ele curte fazer. E eu compreendo isso. Veremos.
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