Wednesday, April 15, 2026

SALÁRIO DO MEDO


 

A INSANA FORÇA DE VONTADE DOS CONDENADOS EM SORCERER, DE WILLIAM FRIEDKIN

BRAD GULLICKSON, 21 DE JUNHO, 2017


Quarenta anos atrás desde seu quase abortado lançamento, Sorcerer é o filme de uma tola aventura para nossos tempos.


Quatro monstruosos rebotalhos se condenam em uma paisagem infernal da América do Sul e imediatamente procuram se livrar da prisão em que eles mesmos se meteram. O filme de William Friedkin é frequentemente rotulado erroneamente como um pesadelo niilista do destino, mas quarenta anos após seu infeliz lançamento, na sombra de “Star Wars”, não posso deixar de encontrar inspiração na força implacável de vontade de seus heróis condenados. Eis uma narrativa que constantemente cospe na cara de seus protagonistas, incita-os a ir adiante, e os tortura alegremente enquanto eles marcham teimosos para o abismo. Por que seguir em frente? Não deveríamos todos acabar logo com isso e cometer suicídio? Essa arrogância para continuar na trilha do desastre provável é o que mantém viva a aventura humana. Chame de ego, espírito, bravura, ou simples terror do fim; “Sorcerer” definitivamente não tem lugar para heróis ou vilões. Eis a celebração dos desesperados.

Após o golpe certo de Operação França e O Exorcista, Friedkin poderia ter feito qualquer filme que quisesse. No filme de Henri-Georges Clouzot, "O Salário do Medo” (Le Salaire de La Peur), ele encontrou um mundo alimentado pela cooperação diante do ódio. O diretor viu uma oportunidade de realçar os apuros dos caídos em um microcosmo de metáfora de como nós idiotas ousamos existir uns com os outros. Infelizmente, a era da Nova Hollywood que começou em Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas (1967) foi abocanhada pelo “Tubarão” e completamente obliterada pela Estrela da Morte. Como elaborou essa semana nossa companheira Natalie Mokry, os arrasa-quarteirões chegaram e não há mais espaço para um suspense existencial [ver também “Encurralado” (Duel), de Spielberg].

A abertura do filme começa com um ataque de sintetizadores da banda alemã Tangerine Dream [“Betrayal”, também usada no trailer de Warriors, dois anos depois]. Por sobre um totem latino-americano que tem uma incrível semelhança com o Pazuzu de O Exorcista, o título rasga a tela no golpe de um pincel em letras brancas garrafais. Sorcerer saboreia nas introduções para seus quatro exilados protagonistas com uma série de vinhetas detalhando como cada cretino seguiu seu caminho pecaminoso para o sul. O assassino de Francisco Rabal entra em um apartamento em Vera Cruz e dispara dois tiros com silenciador no inquilino. Em Jerusalém, o terrorista de Amidou aparece disfarçado para detonar uma explosão em meio a uma multidão na rua. O marido apaixonado de Bruno Cremer foge da polícia em Paris antes de ser preso por suas práticas fraudulentas. Finalmente, em Nova Jersey, Roy Scheider escapa por pouco da morte depois de roubar uns trocados em um jogo de carteado mafioso. Cada homem está simplesmente procurando um lugar nesse mundo e fracassa redondamente.

Com o pouco dinheiro que possuem, cada um dos quatro gasta em proteção em um remoto vilarejo da América do Sul. Uma vez lá, eles passam seus dias presos a trabalhos ínfimos, doses de bebidas duvidosas que são seu único prazer vomitivo. O adiamento da maldição virá na forma de uma morte pelos nazistas ou a execução pelos verdugos de um governo corrupto. Invisível aos poderosos, esse nível de encarceramento auto-infligido nunca foi feito para ser temporário. Aqui, homens precisam fugir do túmulo ou afundar mais ainda.

Quando uma plataforma de petróleo é sabotada durante a noite, um fogaréu descontrolado surge da terra. Procurando combater esse incêndio, a empresa  American Oil Company busca voluntários para transportar uma carga de dinamite instável da base das operações a trezentos quilômetros de distância. Aí é que entram nossos quatro párias desprezíveis. Desesperados o bastante para aceitar tal missão suicida, eles montam em dois caminhões enormes carregados de nitroglicerinaSua jornada é quase uma expedição mítica que permite a Friedkin se esbaldar em tensão.

Dizer que as filmagens de”Sorcerer" foram intensas é até risívelConcebido originalmente como um mini-filme de meio milhão de dólares antes de assumir o drástico The Devil’s Triangle"Sorcerer" teve seu orçamento aumentado de quinze para vinte milhões de dólares. Isso fez com que a parceria entre a Paramount e a Universal Pictures desse conta do trabalho. Ele quebrou o pau com seu cinematógrafo, afastou o sindicato de caminhoneiros, e brigou para montar o elenco. Filmado principalmente na República Dominicana, Friedkin não conseguiu convencer o astro Steve McQueen a se juntar a ele nas selvas próximas aos Estados Unidos, e Scheider (do recente “Operação França”) foi finalmente escolhido como ator principal. Quem sabe se isso teve algum resultado duradouro nas bilheterias – nada poderia enfrentar o turbilhão de atenção gerada pelo sucesso de Star Wars.


A trilha sonora, do trio alemão Tangerine Dream foi encomendada antes das filmagens. O tecladista Peter Baumann aprovou o resultado final, mas não gostou do modo como ela foi usada: “Achamos que, se fosse usada como queríamos, ela se encaixaria perfeitamente no filme, que me decepcionou muito." Edgar Froese acrescenta: “Nós adoramos o roteiro, que nos foi dado bem antes de o filme ser rodado. Pediram-nos para compô-la sem termos visto o filme. Considero Friedkin um dos maiores diretores, mas a edição final e o modo como usou nossa música nos últimos cinco minutos, com um “fade in/out” nos pareceu totalmente impraticável.”


O rosto de Scheider praticamente define a maneira de atuação que nós cineastas estamos tão desesperados em elogiar dos anos de 1970Cercado pelos sorrisos belos e suaves de atores modernos como Chris Pine, Chris Evans, e Chris Hemsworth (hashtag seu Chris favorito!), a cara de Scheider imediatamente solidifica o nível de realidade para uma plateia contemporânea. Eis um ator incapaz da inautenticidade, e vivenciando a situação de seu peso faz você questionar o nível da verdade fabricada que aceitamos de tão boa vontade nos palcos atuais. Esse é o ser humano deteriorado enfrentando o lado da luz e das trevas, e sua vontade de sobreviver é uma assombrosa lembrança de nossa própria mortalidade.

"Sorcerer" teria se perdido no tempo não fosse pelo próprio diretor. Ao passo que o filme ganhou certa notoriedade no circuito “cult”, a maioria apenas assistiu uma versão extremamente editada (ou “versão mutilada”, como o próprio Friedkin castiga em sua carta que acompanha o recente lançamento em Blu-ray). Essa é uma obra de arte bastante pessoal, aquela em que seu criador veementemente acredita décadas depois de sua distribuição tímida. Quarenta anos se passaram, e o formato atual à sua disposição em disco ou “por demanda” simplesmente existe porque Friedkin batalhou pelos direitos. Ele encontrou ajuda na Warner Home Video (o terceiro estúdio responsável pela existência de "Sorcerer"), e o filme está sendo redescoberto – ou na verdade descoberto pela primeira vez.

Em uma era na qual as grandes cadeias de cinema vão além das fronteiras da temporada de verão, mas ainda fracassam em oferecer um escapismo que todos nós estamos desesperadamente aguardando nesse horrendo clima político, o apelo de Sorcerer é a vontade de viver diante do desespero total. Não estou certo se cabe a mim atacar os elementos ou desafiar os monstros ao meu redor, mas busco a saga de Friedkin na esperança de que isso seja possível. Mesmo as criaturas mais baixas irão se comunicar com seus colegas parasitas para combater o fim inevitável.

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