Wednesday, July 27, 2016

NAPALM DEATH: Apex Predator - Easy Meat


Barney, vocalista do Napalm Death, explica as letras do mais recente álbum Apex Predator - Easy Meat. Muitos vão achar essas explicações chatas, mas grindcore não é apenas barulho. Um pouco de aula de humanidades.

Fala aí, eu sou Barney, do Napalm Death, e vou tentar explicar o significado no nosso novo álbum. A coisa vai ficar complexa, portanto, escute com bastante atenção. 

APEX PREDATOR - EASY MEAT

É uma terminologia evolucionária. “Apex Predator” é aquele que fica no topo da cadeia alimentar. Refere-se a grandes negócios, grandes corporações e o modo que elas tratam deliberadamente seus empregados em outras partes do mundo, com deploráveis condições de trabalho, em diversos aspectos. E “Easy Meat” fala dessas condições de trabalho. Também é sobre consumo e rejeição. Uma parte apenas consome e a outra parte do mundo fabrica e retira o que não presta.

SMASH A SINGLE DIGIT

Dígito é um número, obviamente, ou poderia ser um dedo. A imagem está bem clara. Fala de uma pessoa que é apenas um número. Em instâncias mais extremas, as pessoas de outros países que manufaturam produtos são tratadas como números, não são tratadas como pessoas. Por isso não existe dignidade na linha de produção. Elas são tratadas como um número. 

“METAPHORICALLY SCREW YOU”

Essa música fala do mercado de publicidade. Elas nos dizem que precisamos de certas coisas em nossas vidas para realçar… a razão de nossa própria existência, ou para melhorarmos como pessoas. As pessoas acreditam que isso nos dará status possuir um laptop de última linha, porque dizem que o anterior é obsoleto. É claro que não é. Essas coisas não farão nada para nossa posição social. Basicamente estão nos dizendo que, em um ano será obsoleto, vamos jogar fora e comprar outro. É um ciclo constante de consumo desnecessário. A publicidade contém muitas metáforas, sugestões. A ideia é nos sacanear metaforicamente. A sua capacidade de resistir é metaforicamente enterrada no chão. Devo dizer que nenhum publicitário me convenceu porque jamais comprei algo baseado em sua propaganda.

“HOW THE YEARS CONDEMN”

Essa letra foi escrita por Shane. Ela é muito mais pessoal e introspectiva. Shane sempre levou uma vida uniforme. Espero que ele não se importe de eu dizer isso, mas não quero dizer “sem graça”, mas ele sempre fez as mesmas coisas. Tipo, ele teve outro filho há menos de um ano, é uma coisa que afeta as pessoas, e teve que mudar seu estilo de vida, é inevitável. Talvez seja um novo horizonte para ele. Acho que ele está reavaliando seu passado recente, e  que pode parecer estranho, mas as coisas certas ocorreram na hora certa para ele. É uma espécie de agradecimento.  

“STUBBORN STAINS”

Literalmente é uma mancha da peça de roupa, uma mancha que você não consegue remover. Novamente, é sobre as condições de trabalho que as pessoas sofrem nas fábricas. A indústria de vestimentas é desrespeitosa. Eu queria fazer essa observação sobre os operários como uma mancha teimosa. Poucos são valentes o bastante para se revoltar contra essas táticas de intimidação usadas por muitos empregadores ao redor do mundo. Quase que sugerindo que essas manchas teimosas não irão sair ao lavar. Em resumo, a música fala que essas manchas são intimidação, um abuso físico para deter essa resistência contínua. É um caso triste.

“TIMELESS FLOGGING”

Obviamente é um completo tabu, e por que não deveria ser? Usar diversas táticas para manter os operários na linha. Na época da escravidão, é claro, era comum chicotear alguém amarrado num poste como castigo. E é claro, como “incentivo” para se trabalhar mais. Obviamente, as indústrias afirmam, “Nós não usamos essas técnicas, são desumanas!” Não é preciso mais usar essas técnicas para oprimir as pessoas, porque se pode fazê-lo psicologicamente. Tem uma frase na música que diz: “Sim, eu não tenho ‘marcas de revolta’ nas costas”. Essas marcas são das chicotadas. Diz que não tem as marcas nas costas, mas as cicatrizes estão na mente, da constante intimidação. 

“DEAR SLUM LANDLORD…”

Na verdade, eu a escrevi como uma carta aberta, “Prezado Senhorio…” seria a linha de abertura. Existe uma cena imaginária onde eu imagino um senhorio que é alguém que controla a moradia de alguma pessoa, um trabalhador, como sugestão… em outro país. Ele está por cima e o outro está ajoelhado no chão, assim se configura uma distinta hierarquia. Essa pessoa está basicamente dizendo “Sei que quer aumentar meu aluguel e não quero que corte a água. Mas se você me punir, prometo que serei um operário melhor no meu local de trabalho”. Ele está quase implorando para ser punido para ser uma pessoa melhor. Porque as pessoas sofrem lavagem cerebral e se tornam menos produtivas se não forem punidas ou pressionadas.

“CESSPITS”

”Cesspits” é uma coisa que se mantém… era usado como esgoto para evitar transbordamento, basicamente. O que eu quis sugerir com isso era falar de pessoas que vivem em buracos, figurativa e literalmente. Quando você pensa a sério, é nisso que chegamos no ano de 2014, as pessoas têm que viver isso. Dá um nó na mente. É claro, há outro ponto. Eu acho que, embora as pessoas necessariamente não pensem nisso deliberadamente, isso quase se adequa às pessoas do outro lado do mundo que vivem em buracos, porque isso cria uma separação, quer dizer, sua existência não está ameaçada. Sua existência “luxuosa” não está ameaçada enquanto houver pessoas lá. Elas estão confinadas em buracos. 

“BLOODLESS COUP”

Já escrevi algumas letras sobre resistência passiva. É um tema comum, porque eu me considero um pacifista. Nem sempre fui assim, mas eu acho que, parte de se descobrir como um ser humano é que você compreende que a violência não resolve nada, nunca. Estou sugerindo que, com certeza as condições em que as pessoas trabalham ou vivem no mundo são forçadas por outras pessoas. Acho que, para escapar dessas situações, é sempre melhor dar um golpe sem derramamento de sangue, uma resistência passiva.

“BEYOND THE PALE”

Mitch escreveu essa em todos os aspectos. Pelo que pude interpretar essa letra, até que não foi difícil. Acho que fala de você ficar atolado em dívidas. Porque dívida é consistentemente uma espécie de bônus oculto, uma coisa terrível. Os governos parecem se preocupar com dívidas mas ficam felizes em lucrar sobre as empresas, quase que para empurrar para as pessoas. Eles adoram essa “sub-economia”. É ridículo que as pessoas vivam nesse ambiente. É claro, é um ótimo método de controle manter alguém sob dívida.

“STUNT YOUR GROWTH”

É sobre a engenharia genética. Porque, acima de tudo, uma coisa totalmente ridícula é que qualquer empresa, como a DuPont ou a Monsanto, possam deter direitos autorais sobre a tecnologia das sementes. Quer dizer, as sementes são, além da água, a base do nosso sustento, o sustento de todos. Elas deveriam ser liberadas para todas as pessoas, não se deve permitir o patenteamento de sementes ou nada parecido. Uma das histórias mais ridículas sobre isso é o fato de que as sementes se espalham através do vento, elas crescem em lugares diferentes, são transportadas pelo vento ou carregadas pelos animais. Essas sementes caem nas terras de outras pessoas ou em “fazendas orgânicas”, e essas fazendas orgânicas estão sendo processadas por infringir direitos autorais. Quer dizer, isso não é ridículo?

HIERARCHIES

Essa também é do Shane. É sobre o preço do progresso. Porque o progresso não é mais progresso, pois ele é tão destrutivo que na verdade é regressivo. Esse é o estranho da coisa.

ONE-EYED

É como olhar uma coisa só com um olho, você enxerga tudo pela metade. É um dos temas sobre escravidão, mas apenas de modo casual o mercado da escravidão. Se você andar em muitas ruas do Reino Unido, verá casas com as cortinas fechadas, mas o que não sabe é que lá dentro vivem umas trinta pessoas. O que fazem, “Vamos pôr vocês nessa casa - que são verdadeiras pocilgas - Vocês podem morar aqui, mas têm que trabalhar para nós, mas só vão receber salários de fome, e em troca não diremos às autoridades que estão aqui sem documentos.” E o único meio de sobreviver é colher frutas, esse é o que importa, e isso é trabalho escravo, basicamente. Porém, os supermercados estão contentes de comprar dessas organizações. Então, tem gente que pensa que a escravidão está em outras partes do mundo, e não vêm o que acontece debaixo do nosso nariz. E essas empresas, de certo modo diriam, “Não usamos trabalho escravo nem pagamos quem usa trabalho escravo”. É claro que isso existe.

ADVERSARIAL/COPULATING SNAKES

“Adversarial/Copulating Snakes” são na verdade duas músicas juntas. O tema passa de uma para a outra. “Adversarial” é basicamente um “foda-se”. Ela fala de um cara, ou uma garota, tanto faz, diante do seu empregador, dizendo “Foda-se. Você não vai me tratar mais desse jeito”. Então a primeira metade é um tipo de “foda-se”. É bem típica das letras do Napalm Death. A segunda metade, “Copulating Snakes”, é essencialmente uma coisa imaginária, mas é o mesmo cara diante dos grande chefões, as serpentes, e o que acontece é que ele continua dizendo que não vai mais se curvar às pressões. E acontece aquele encantamento típico das serpentes. E no final, eles são tão poderosos que exercem tanto poder de coagir, que o matam no final, matam sua vontade própria. Esse é o significado figurativo: eles matam a vontade dele completamente. Esse é o fim do álbum, acaba num tom negativo. O que é apropriado, porque falamos desse sistema de manufatura ao redor do mundo, como deve ser de as pessoas pensarem que está mudando, mas não está. Mesmo depois do que tem acontecido nos últimos anos.  






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